No início de 2025, apicultores nos EUA entraram em pânico: 62% das colônias tinham morrido nos últimos 6 meses. E isso depois de 50% terem colapsado no ano anterior. Com essa mortalidade fica quase impossível criar colônias suficientes para substituir as abelhas perdidas. E isso coloca em risco o processo de polinização de grande parte das culturas de frutas. As conclusões de uma investigação das causas desse morticínio tornam o problema ainda mais preocupante.
Plantas atraem abelhas que se alimentam do néctar produzido pelas flores. Ao coletar o néctar, o pólen (o equivalente aos espermatozoides dos animais) presente na flor adere ao corpo da abelha e é transportado até outra flor onde fecunda o óvulo. O óvulo fecundado se transforma em semente e na fruta que você compra no supermercado.
É o processo de polinização que garante a reprodução da maioria das plantas. Outros insetos e aves também contribuem, mas o grosso do trabalho é feito pelas abelhas. Esse serviço fornecido pelas abelhas tem o valor de US$ 25 bilhões por ano nos EUA e US$ 387 bilhões no planeta como um todo. Sem abelhas é isso que custaria a polinização por outros meios.

Plantas atraem abelhas que se alimentam do néctar produzido pelas flores. Foto: Rocamora/Adobe Stock
Nos ambientes naturais são as abelhas que vivem nas reservas legais e no meio das plantações que fazem o serviço. Nos EUA, o inverno dificulta a sobrevivência das abelhas e muitos apicultores transportam as colônias de um local para o outro dependendo de onde as culturas estão florescendo. Foram esses apicultores que soaram o alarme.
Um grupo de cientistas do departamento de agricultura dos EUA foi investigar o que estava acontecendo. Faz anos que a morte de abelhas vem preocupando.
Nas últimas décadas, foi descoberto que um pequeno número de vírus era responsável pelas pandemias que afetam as abelhas, da mesma forma que muitos vírus causam pandemias entre nós. E muitos desses vírus são transmitidos de uma abelha para outra por ácaros. É um fenômeno semelhante ao que ocorre com o vírus da dengue, que passa de um humano para outro através da picada de um inseto infectado pelo vírus. Da mesma maneira que combatemos a dengue matando os mosquitos, os apicultores passaram a combater os vírus utilizando acaricidas.
Foram examinadas 131 colônias de abelhas afetadas que representam uma amostra de um total de 183.750 colônias usadas por apicultores. Em cada colônia foi coletado o DNA das abelhas afetadas, dos ácaros e de todo e qualquer ser vivo encontrado na colônia moribunda.
O que os cientistas encontraram foi uma coleção de sequências de DNA de diversos vírus. Em todas as colônias examinadas foi encontrado uma única espécie de ácaros, o Varroa destructor, que como o nome diz, ataca de forma destrutiva as colônias. A novidade é que no passado esse ácaro era encontrado junto com outros ácaros e associado a poucos vírus. Agora ele é o único presente e transmite uma dezena de vírus diferentes.
Identificado o ácaro e os vírus responsáveis, faltava entender a razão desse único ácaro estar fazendo o estrago. As amostras de Varroa destructor foram submetidas aos acaricidas usados pelos apicultores. Esse ácaro já era resistente a todos os acaricidas conhecidos, mas era suscetível a um único acaricida, o amitraz. Agora, os exemplares coletados em todas as colônias examinadas pelos cientistas se mostraram resistentes ao amitraz, o que explica sua propagação por todas as colônias utilizadas pelos apicultores.
O preocupante é que não existem novos acaricidas em desenvolvimento, e os grupos que investigavam novos acaricidas e estudavam abelhas tiveram suas verbas cortadas pelo governo dos EUA nos últimos seis meses. Tudo isso projeta um futuro sombrio para os apicultores americanos. E, sem abelhas, não teremos polinização e menos frutas no supermercado. Talvez a solução seja voltar a depender somente da polinização feita por abelhas que crescem nas florestas, na esperança de que esse ácaro tenha mais dificuldade de se espalhar.
O aparecimento de ácaros resistentes a acaricidas é um fenômeno semelhante ao aparecimento de bactérias resistentes aos antibióticos e pragas agrícolas resistentes às plantas transgênicas. Mas, tudo isso é esperado, como Darwin descobriu. Se você coloca no ambiente uma nova pressão seletiva, sejam antibióticos ou acaricidas, a seleção natural acaba favorecendo os animais capazes de viver nesse novo ambiente.
Mais informações: Viruses and vectors tied to honey bee colony losses. bioRxiv https://doi.org/10.1101/2025.05.28.656706 2025
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