Comando Vermelho monitora favela do Rio com drone de visão noturna
Investigação realizada pela Polícia do Rio aponta que o CV realiza ‘monitoramento constante da presença policial com o auxílio de drones’. Crédito: Geovane Ribeiro dos Anjos
Trilhos de trem cortam os complexos da Penha e Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Mas ali não há transporte público nem direito de ir e vir. Os pedaços de aço, por onde deveriam passar vagões com passageiros, estão picotados e foram fincados verticalmente no chão. Latões de ferro enchidos de concreto complementam o bloqueio para carros, ônibus, veículos de serviço públicos ou internet, caminhões de entrega ou coleta de lixo, vans de concessionárias de luz ou água, motoristas de aplicativo e táxis.
Só em 2024, as forças de segurança afirmam ter retirado sete mil toneladas dessas barricadas nas vias de comunidade pobres. Investigações conduzidas pelas autoridades fluminenses, porém, revelam que tais barreiras deixaram de ser só uma estratégia do Comando Vermelho (CV) para atrapalhar viaturas e blindados em dias de operação policial em favelas.
Cercar e administrar um território virou um negócio – muitas vezes mais rentável que a venda de drogas – e transforma o funcionamento das facções de traficantes em todo o Brasil. Assim como faz a milícia, eles ganham dinheiro por meio da extorsão de moradores, impondo um monopólio da venda de serviços de internet ou cobrando uma espécie de pedágio de quem trabalha com carro de app ou mototáxi.

Além de evitar a passagem de blindados, trilhos de trem servem para impedir a livre circulação de vans e caminhões de empresas Foto: Alaor Filho/Estadão
“A gente chama isso de milicialização do tráfico. O chão, o domínio territorial, dá para eles muito mais dinheiro do que a venda de entorpecente”, disse ao Estadão o delegado André Neves, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada do Rio. “Os traficantes absorveram a lógica da milícia e perceberam que dá muito dinheiro cobrar taxas.”
Inquéritos abertos pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, que obtiveram a quebra do sigilo de conversas de criminosos do CV, principal facção do Estado, demonstram que a lógica é puramente econômica. “Em uma rua, um ou dois vão usar cocaína. Mas quantos usam internet? Todos”, explica o policial.
Segundo ele, ao fechar a comunidade para entrada externa, tudo vira monopólio e passível de extorsão. “Nos Andes, de onde sai a cocaína, há concorrência. No Paraguai, de onde vem a maconha, há vários grupos criminosos. Nas estradas, há concorrência, risco de prisão. Perde-se droga”, argumenta.
“Se boto barricada no meu bairro, já começo a ganhar na hora. É lucro imediato e sem concorrência. E se boto a barricada no quarteirão seguinte, já tenho mais quase 200 pessoas para extorquir. Eu exploro tudo.”
O delegado aposentado Vinicius Jorge, que investigou e acompanhou o crescimento das milícias no Rio, afirma que esse modelo, há anos, vem se aperfeiçoando no vácuo das omissões e corrupções dos agentes públicos. Como ele explica, após perder lideranças e se subdividir, os milicianos foram enfraquecidos e passaram a perder territórios históricos para os traficantes, especialmente na zona oeste carioca.
“A rigor, o tráfico já vinha perdendo receita com as drogas sintéticas, delivery de drogas, entrega digital. Cocaína e maconha em favela foram virando coisa velha”, diz. “O traficante precisava de novas fontes de renda. Olhou para o lado e copiou a milícia. E, nesse modelo, quanto mais área, mais receita.”

Vista geral da Vila Cruzeiro, na Penha, na zona norte do Rio de Janeiro Foto: Pedro Kirilos/Estadão
Um policial militar que atua no setor de inteligência, mapeando os complexos da Penha e do Alemão de forma velada, explica que esse tipo de cobrança virou regra nos últimos cinco anos. “Luz, água, carvão, gelo, gás, internet, vans, mototáxis, carro de aplicativo… Tudo agora é deles (traficantes) e precisa pagar algum tipo de taxa. São valores que parecem pequenos, mas, considerando a massa de trabalhadores que vive ali, geram milhões de reais por mês”, explicou ele, pedindo anonimato.
Um botijão de gás de cozinha, por exemplo, pode custar R$ 150 na favela. No Estado do Rio, a Agência Nacional de Petróleo calculou, em setembro, uma média de valor de R$ 97,43 como preço final ao consumidor.
Na Rocinha, comunidade da zona sul dominada pelo CV, a estimativa é de que cerca 1,5 mil motos paguem taxa semanal de R$ 150, o que rende lucro superior de quase R$ 1 milhão para o CV.
“Comerciantes e empresários precisam fazer doações recorrentes de cestas básicas, que depois são vendidas para a população e viram dinheiro para os bandidos.”
Como aponta a investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) que gerou a megoperação de terça-feira, 28, que terminou com 121 mortos, o CV usa a Penha e o Alemão como base para uma expansão em comunidades da zona oeste do Rio, anteriormente dominadas pela milícia, em movimento de ampliação do território que, segundo o delegado Neves, tem fins financeiros.
A expansão tem priorizado ofensivas concentradas na região de Jacarepaguá, onde houve guerras sangrentas na disputa pelo território.

Na Gardênia, por exemplo, boa parte das ruas já tem barricadas do tráfico. As comunidades da Chacrinha e Bateau Mouche passam por transformações similares. A Muzema, bairro em que a milícia construiu irregularmente dezenas de prédios, foi pensada por esses bandidos para abrigar verticalmente centenas de trabalhadores da próxima e próspera Barra da Tijuca, colocando em prática um enorme sistema de extorsão pelo uso de cada unidade.
Agora, os novos donos do pedaço – os traficantes – copiam e exploram também o uso e parcelamento do solo, assim como dos apartamentos. “O CV fez recadastramento de todos os moradores para cobrar também taxas de condomínio dos antigos prédios da milícia e extorquir valores até do aluguel”, explicou o policial militar que falou ao Estadão.
O engenheiro Sancler Melo, ex-subprefeito do Recreio dos Bandeirantes, confirma que os espaços invadidos pelos traficantes adotaram as mesmas práticas dos antigos inquilinos criminosos. “No começo, em alguns lugares, até houve acomodação, mistura de tráfico com milícia, como na comunidade do Terreirão. Com o tempo, e o avanço dos traficantes sobre várias áreas, a conclusão deles foi: ‘vamos ficar com tudo’.”
‘Soberania do crime’
A extorsão imediata de moradores carentes, porém, é uma parte de mercado com potencial muito mais lucrativo – algo que vem sendo estudado e causa enorme preocupação no setor industrial.
“É preciso fazer diferenciação do Rio para qualquer outro Estado. Os criminosos lá operam economicamente o domínio de uma região. É a soberania do crime. Lá só entram eles. E eles atiram em quem tentar entrar”, diz Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), instituição que representa dezenas de setores da indústria, como, por exemplo, os de brinquedos, TV por assinatura, celulares, roupas, produtos de higiene e saúde, combustíveis e suprimentos de informática.
A reportagem apurou que as delegacias do Rio são frequentemente procuradas por representantes dos mais variados segmentos do comércio, como grandes distribuidoras de bebidas, empresas de entregas, redes de farmácia, de telefonia e internet. A reclamação é a mesma: as marcas dizem que são proibidas de entrar nos territórios ou chantageadas a pagar taxas rotineiras para circular.
“Tem de falar com a facção ou não consegue acesso. Mesmo se a pessoa comprar um produto desses fornecedores pela internet, não recebe porque o caminhão não entra. Tem de entregar em um endereço de terceiros que, normalmente, é ligado a criminosos”, diz Vismona ex-secretário estadual de Justiça de São Paulo.
Nos últimos anos, investigações da Polícia Federal do Rio mostram que, diante dessa nova organização territorial, um setor passou a ter protagonismo econômico no submundo carioca: o contrabando de cigarro. De 2015 a 2024, essa máfia movimentou R$ 5 bilhões, segundo informações da PF. No Alemão, não entram marcas tradicionais do produto. Todas estão proibidas, pelos criminosos, de serem vendidas em bares e afins.

No dia seguinte à megaoperação policial, corpos de mortos foram levados para praça da Penha Foto: Pedro Kirilos/Estadão
“O traficante tem poder único de controlar a oferta e a demanda. Nas ruas dos centros urbanos, o consumidor é atraído pelo preço do cigarro contrabandeado, menor por conta da sonegação, mas ele ainda tem opção. No Alemão é diferente: não tem outra opção”, diz Vismona.
“Um criminoso armado, com uma máfia por trás, obriga o comércio apenas dos produtos dele. A demanda é controlada por quem manda no espaço”, acrescenta ele. No ano passado, segundo o Fórum Antipirataria, o contrabando de cigarro movimentou R$ 175 milhões no Rio.
Lavagem interna do tráfico fica invisível para autoridades
Há três anos, um mototaxista foi levado à 22ª Delegacia de Polícia (DP), na Penha, que também atende ocorrências no Alemão, após ser abordado depositando R$ 50 mil em um banco. O nome dele será preservado por segurança.
Segundo documento a que a reportagem teve acesso, “as contas foram indicadas pelas lideranças do CV”: Edgard Alves de Andrade, o Doca ou Urso, assim como Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala, alvos da operação da última semana.
A reportagem não localizou a defesa dos citados. Doca e Pedro Bala seguem foragidos.
O depoimento do mototaxista faz parte de inquérito que desvendou enorme engrenagem de lavagem de dinheiro no Alemão. Alguns investigados movimentaram, em dois anos, mais de R$ 33 milhões. No total, eram quase R$ 100 milhões envolvidos no esquema.
Segundo a polícia, os envolvidos “são de baixa renda, sendo certo que os valores movimentados não encontram qualquer respaldo em suas capacidades econômico e financeira”. Segundo o relatório do inquérito da DRE, “em curtos períodos, movimentam milhões de reais”.
Aos investigadores, o rapaz abordado na agência bancária disse que “todos os pontos de mototaxista que operam no bairro da Penha e nas dependências do Complexo da Penha são administrados e controlados pela organização criminosa”.
Como ele explicou, o serviço de vans, “gatonet” (desvio de sinais de TV e internet), a venda de cigarros clandestinos, além de restaurantes e bares são todos comandados pelos donos de ocasião do espaço – ou precisam pagar taxas para funcionar.
Segundo o interrogado, ele fazia os depósitos de valores altos para criminosos, usando suas identificações pessoais, para ganhar cerca de R$ 100 por operação. E diz: mesmo que quisesse “recusar agir sob as ordens dos traficantes”, não poderia.
“Porque em represália seria castigado por Doca ou Pedro Bala com a suspensão de suas atividades no ponto de mototáxi, por pelo menos uma semana, ou seria alvo de coisa pior.”
Trocas de mensagens e imagens interceptadas pelos investigadores evidenciam uma rotina de abusos e desmandos pelo CV. Nas favelas, vigora uma justiça paralela, com execuções e tortura de desafetos, julgados pelos próprios bandidos, e até tortura de moradores.
Segundo o delegado André Neves, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada do Rio, a lavagem do dinheiro do tráfico é feita dessa forma, enviando dinheiro para fora das favelas, mas também localmente. Há reinvestimentos feitos em construção de casas, restaurantes, fornecedores de todo tipo de produto e comércio.
É por isso que, para ele, não se pode fazer paralelos com a situação do Rio e de outros Estados, onde não há, ainda, pedaços da cidade isolados pelos criminosos.
“As duas coisas são importantes: combater a lavagem no sistema bancários, mas é preciso, também, intervir no dinheiro rodando na favela, que cria esses territórios extremamente lucrativos e onde as pessoas são alvo de todo tipo desmando, como torturas e execuções por um poder paralelo. O Rio é diferente. As pessoas precisam entender”, afirma Neves.
Em 2020, a polícia fez outra incursão grande ao Alemão. O confronto deixou 13 mortos, entre eles Leandro Simões Nascimento Furtado, o Diminho, apontado como do alto escalão da quadrilha. Ele morreu no dia 16 de maio. Em 15 dias daquele mês, ele já tinha movimentado R$ 5 milhões em recursos, segundo investigação da polícia à época.

Dezenas de fuzis foram apreendidos pelas forças de segurança do Rio na megaoperação desta semana Foto: Mauro Pimentel/AFP
Um policial que comandou essa apuração explica que o criminoso tinha mais de 60 residências dentro das comunidades, usadas para aluguel e lavagem de dinheiro. “Todos tinham a mesma padronagem de construção e pintura. Ou era cinza com detalhes em azul. Ou azul com detalhes em cinza. Todo mundo sabia que era dele”, explica o investigador, que não quer se identificar, por já ter deixado o caso. A defesa de Diminho não foi localizada.
“São casas de festa, restaurantes, bailes funk, boates, casas de jogos. É um patrimônio informal que não tem registro, ninguém sabe quem é o dono e quem vai comprar, morar ou alugar. É uma lavagem que não adianta quebrar sigilo. É um dinheiro que não existe, em imóveis sem registro em cartório. Está tudo cercado lá dentro, protegido de fuzil.”
Há, pior ainda, outra dificuldade. Por mais que as autoridades descubram que determinado patrimônio é fruto da atividade criminosa, não há um caminho para reaver tais bens judicialmente, como se faz no resto das cidades. “Como faz para o Estado reaver isso? Quem vai explorar? Quem vai para um leilão desses?”, questiona o policial.
A investigação sobre o patrimônio de Diminho, mais do que isso, mostrou outra face da nova organização econômica: o aumento exponencial de armas de guerra em poder dos bandidos. Ele era apontado como grande responsável por vender e alugar fuzis para o CV no Alemão.
“Quando analisamos toda a contabilidade da facção no morro, ficou muito claro que ele, o armeiro, era um dos que mais movimentava dinheiro, era um dos mais ricos. É claro: para se manter no território, você precisa de poder bélico absurdo.”
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