As investigações que vieram à tona nesta semana após a megaoperação de terça-feira, 28, que deixou 121 mortos, sendo quatro policiais, apontam que os complexos de favelas da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, eram usados pelo Comando Vermelho como uma espécie de refúgio de traficantes de outros Estados e também como centro de treinamento para novos criminosos da facção.
Como o Estadão mostrou, trocas de mensagens e vídeos interceptados por policiais da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) relatam o funcionamento de uma “escola de tiro” do CV, na região da Pedreira, no Complexo da Penha, onde jovens recrutados pelo crime recebem instruções dos mais experientes e aprendem a atirar com fuzis.
As provas coletadas nas investigações, inclusive, embasaram a polícia na ofensiva contra o Comando Vermelho deflagrada na terça-feira, 28. Entre os mortos na megaoperação, 40 eram de outros Estados, segundo o delegado Felipe Curi, secretário da Polícia Civil do Rio. Este número pode aumentar, já que 18 corpos ainda não foram identificados.
Moradores recolheram corpos de mortos da operação da polícia do Rio contra o Comando Vermelho Foto: Pedro Kirilos/Estadão
Traficantes de fora do Rio
O Comando Vermelho tem avançado nos últimos anos sobre territórios de grupos rivais – como as milícias, que perderam espaço no Rio de Janeiro. A facção tem ainda expandido a atuação pelo País: o grupo é hegemônico na Amazônia, onde atua na importação de cocaína de Peru e Colômbia e se envolve até no garimpo ilegal.
As investigações apontam que nomes ligados ao CV em outros Estados foram para o Rio para se esconder e acabaram se tornaram atuantes no tráfico local. Entre os mortos na terça-feira estão:
- 13 do Pará
- 7 do Amazonas
- 6 da Bahia
- 4 do Ceará
- 1 da Paraíba
- 4 de Goiás
- 1 do Mato Grosso
- 3 do Espírito Santo
Mortes no Ceará
Conforme relatório recente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o CV está em quase todos os Estados do Brasil. A forma de organização da facção, tida como menos hierárquica do que o PCC, pode ter ajudado na ocupação territorial de regiões mais distantes dos grandes centros.
“A organização criminal adota estrutura relativamente autônoma nos Estados, onde cada facção fora do Rio que adere à sigla CV possui líderes locais e liberdade de atuação”, aponta o relatório da Abin.
Sete membros do Comando Vermelho morreram na madrugada desta sexta-feira, 31, em confronto com a Polícia Militar do Estado do Ceará. A ocorrência foi registrada na cidade de Canindé. Por meio das redes sociais, além do governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), elogiou a ação.
‘Escola’ do crime
A Polícia Civil do Rio diz que integrantes do Comando Vermelho utilizam os complexos do Alemão e da Penha como centros de treinamento de tiro. “A investigação e os dados de inteligência comprovam que são nos complexos da Penha e do Alemão que são feitos treinamentos de tiro, tática de guerrilha, manuseio de armamento, cooptação desses marginais que vêm de fora do Estado para serem, entre aspas, formados aqui e depois retornarem aos seus Estados de origem para a implementação da cultura da facção”, disse nesta sexta-feira, 31, o delegado Felipe Curi, secretário da Polícia Civil do Rio.
De acordo com as investigações, um dos suspeitos de treinar os soldados do tráfico é Juan Breno Malta Ramos, conhecido como “BMW”. A reportagem não localizou a defesa do acusado.
BMW exerceria a função de gerente do tráfico na região da Gardênia Azul, na zona oeste carioca. Ele também é apontado pelos investigadores como chefe de um grupo chamado “Sombra”, uma equipe composta por matadores a serviço do Comando Vermelho que trabalham na ofensiva da facção criminosa na região da grande Jacarepaguá.
Por exercer a função de ampliar os domínios da facção, BMW controla grandes quantias de dinheiro. Com esses recursos, ele compraria armas de grosso calibre e faria investimentos em segurança, possuindo “diversas câmeras de monitoramento no Complexo da Penha e na comunidade Gardênia, algumas com sensor de movimentação”.
Em outro vídeo anexado ao inquérito, BMW mostra a importação de fuzis, pistolas, granadas e carregadores. “BMW também atua na formação de novos marginais, comprovando seu alto grau na hierarquia da facção”, dizem os investigadores.
‘Alemão e Penha: QGs do Comando Vermelho’
Segundo o secretário Felipe Curi, os complexos do Alemão e da Penha “passaram a ser o QG do Comando Vermelho”: “São desses complexos que partem todas as ordens, decisões e diretrizes da facção para todos os outros Estados onde o Comando Vermelho tem atuação, praticamente em todos os Estados do Brasil”. Na terça-feira, 113 suspeitos foram presos e 90 fuzis, apreendidos pelos cerca de 2,5 mil policiais que avançaram pelos complexos do Alemão e da Penha.
Além da ofensiva em direção a Jacarepaguá, os conflitos armados com envolvimento da facção se espalha também por outras regiões. As semanas que antecederam a operação desta semana foram marcadas por sucessivos confrontos entre o CV e o Terceiro Comando Puro, com intensas trocas de tiros na zona norte do Rio.
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