Tyler Robinson reproduzia linguagem relacionada a grupo nacionalista, supremacista branco e cristão: os groyper
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Após o assassinato de Charlie Kirk, influenciador pró-Trump e um dos rostos mais conhecidos da exterma direita norte-americana, a internet foi inundada por informações falsas e teorias da conspiração. Sem qualquer dado concreto sobre o autor ou suas motivações, se espalhavam versões que responsabilizavam a esquerda e o Partido Democrata, além de narrativas antissemitas que apontavam judeus e a inteligência israelense como responsáveis pelo crime.
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A polícia identificou o suspeito como Tyler Robinson, de 22 anos, morador de Utah. Não tinha filiação partidária nem histórico de voto, embora seus pais sejam republicanos registrados —o pai, Matt Robinson, é vice-xerife há 27 anos e colaborou com a polícia ao reconhecer o filho nas imagens divulgadas.
O episódio acentuou fissuras dentro da própria direita americana diante do surgimento de ligações entre Robinson e os “Groypers”, um grupo digital de nacionalistas brancos e neonazistas com forte carga antissemita que orbita em torno do influenciador Nick Fuentes. Kirk era atacado por ser “moderado demais” e apoiar Israel. A morte, então, foi reinterpretada como um divisor de águas: postagens que viralizaram no X diziam que “a bala que matou Charlie Kirk matou a direita moderada”, ou ainda, “ele era o último moderado —agora verão o que é a extrema direita”.
Extremista de direita?
Agachado com um moletom preto e um boné cobrindo os olhos, Robinson parece, à primeira vista, apenas mais um adolescente comum. Mas, nos cantos obscuros da internet, onde Robinson aparentemente passou grande parte do tempo, o suspeito pela morte de Charlie Kirk está, na verdade, fazendo o que se conhece como “agachamento eslavo” (“Slav squat”). A pose e as roupas que ele usa na foto — orgulhosamente compartilhada por sua mãe — formam a base de um meme da internet há muito associado à extrema-direita.
Donald Trump foi rápido em culpar a “esquerda lunática” após o assassinato de Kirk em um campus universitário, embora a polícia ainda não tenha divulgado o motivo do suposto autor do crime. Robinson também teria inscrito mensagens antifascistas nas balas usadas.
O meme do “Slav squat” deriva de uma variação da imagem de Pepe, o Sapo — um desenho animado de um sapo gordinho que se tornou símbolo de jovens alinhados à extrema-direita nos Estados Unidos.
Esse meme foi adotado pelos chamados “Groypers” — uma facção extremista online liderada por Nick Fuentes, figura da direita radical que se dedica a zombar e provocar conservadores tradicionais, incluindo o próprio Kirk, embora o meme de Pepe também circule em outros contextos e seja amplamente utilizado na cultura da internet.
O grupo conhecido como “Groyper Army” se identifica como nacionalista cristão branco e costuma atacar outros grupos conservadores que consideram moderados ou inclusivos demais. Fuentes já atacou conservadores negros, alegando que foram contratados apenas por cotas de diversidade, ou os chamando pelo termo racista “Uncle Toms”.
Kirk, com seu movimento Turning Point e laços estreitos com Trump, era alvo constante dos Groypers. Durante as chamadas “Guerras Groyper” de 2019, eles interromperam eventos de Kirk e o confrontaram sobre imigração e seu apoio a Israel, tentando pintá-lo como um conservador “anti-branco”, tudo sob a orientação de Fuentes.
“Eles estão muito interessados em um tipo de governo mais autoritário. Querem criar um Estado etnonacionalista em benefício das pessoas brancas. Esse grupo é, na verdade, o herdeiro da alt-right”, afirma Joan Donovan, professora assistente de jornalismo na Universidade de Boston.

Referências da direita radical em munições
Outras possíveis conexões com os Groypers aparecem nas inscrições feitas nas munições utilizadas por Robinson.
A bala que matou Kirk trazia a frase “Notices bulge OwO what’s this?” — uma piada da internet originada em encenações “furry”, mas frequentemente usada de forma irônica e zombeteira por membros da extrema-direita.
Outras inscrições são menos claras. Uma delas dizia: “Hey Fascists, Catch!” ao lado de símbolos de seta para cima, seta para a direita e três setas para baixo. Essa combinação de setas é usada no videogame satírico Helldivers 2 para acionar o ataque mais poderoso do jogo.
Uma cápsula, no entanto, continha versos da canção antifascista italiana da Segunda Guerra Mundial, Bella Ciao, que ganhou popularidade renovada após aparecer na série La Casa de Papel da Netflix — e que, curiosamente, também aparece em playlists dos Groypers no Spotify.
Em outras fotos publicadas por Robinson e seus amigos, ele aparece fantasiado como presidente no Halloween, com o rosto pintado de verde — uma possível referência à edição do Pepe o Sapo que o próprio Trump compartilhou em 2015.
Nada disso, no entanto, constitui prova definitiva das inclinações políticas de Robinson.
Segundo sua família, ele não demonstrava interesse por política até recentemente — o que sugere que ele pode ter escondido suas opiniões ou ter sido radicalizado com o tempo.
As atenções se voltaram para Robinson e os Groypers como o mais novo capítulo na batalha entre os extremos políticos dos EUA, em que cada lado tenta culpar o outro por inspirar o assassinato de Kirk.
O governador republicano de Utah, Spencer Cox, disse no domingo que, embora ainda fosse cedo para afirmar um motivo, Robinson tinha uma “ideologia claramente de esquerda”. “E0ssa informação vem de pessoas próximas a ele, membros da família e amigos”, afirmou.
É possível que as referências à cultura da internet nas balas tenham sido mal interpretadas. Alguns agentes do FBI chegaram a sugerir inicialmente que as mensagens indicavam uma “ideologia transgênero”, mas recuaram depois.
Os relatos sobre um suposto relacionamento romântico com um colega de quarto transgênero também alimentam especulações de que Robinson possa ter se revoltado contra as posições de Kirk em relação aos direitos das pessoas trans.
De todo modo, o rastro digital de Robinson indica, no mínimo, que ele conhecia e sabia usar a linguagem da alt-right em algum momento. Se o fazia intencionalmente, ainda não está claro.
Fuentes, por sua vez, tratou de se distanciar de Robinson e de qualquer ligação com os Groypers. “Meus seguidores e eu estamos sendo acusados pelo assassinato de Charlie Kirk pela grande mídia com base literalmente em zero evidências”, declarou.
Em outro vídeo, disse aos apoiadores: “A todos os meus seguidores: se vocês pegarem em armas, eu os repudio.” E acrescentou: “Renego vocês da forma mais enfática possível.”
Memes: a moeda da Geração Z
Outros jovens homens envolvidos em tiroteios de motivação política também usaram memes.
Em 2019, pouco antes de Brenton Tarrant atacar uma mesquita em Christchurch, na Nova Zelândia — deixando 51 mortos — ele disse aos espectadores de sua live: “Inscrevam-se no PewDiePie”. PewDiePie, famoso youtuber, declarou estar “profundamente enojado” por ter seu nome mencionado.
Em 2022, um nacionalista branco de 18 anos transmitiu ao vivo um ataque a um supermercado em Buffalo, Nova York. Detetives descobriram depois que ele planejou tudo no 4Chan e no Discord, chamando a ação de “shitpost da vida real”.
Em 2024, Luigi Mangione teria atirado no CEO da UnitedHealthcare, Brian Thompson, usando balas com as palavras: “negar”, “defender”, “destituir”. Há especulações de que as inscrições tenham sido inspiradas no livro de 2010 de Jay M. Feinman, Delay, Deny, Defend: Why Insurance Companies Don’t Pay Claims and What You Can Do About It. Quando procurado pelo The Sun, Feinman se recusou a comentar sobre as inscrições nas balas.
No mês passado, Robin Westman abriu fogo contra um grupo de crianças do ensino fundamental em uma igreja em Minneapolis, usando armas com mensagens vindas de todos os espectros políticos.
“Os memes são a moeda da Geração Z. São o que mais importa. É com as subculturas que eles se identificam”, disse Joan Donovan, autora de Meme Wars: The Untold Story of the Online Battles Upending Democracy in America.
“Nos últimos massacres, especialmente desde Christchurch, temos visto que os memes desempenham um papel importante no discurso posterior dos assassinos.”
Embora ainda não haja consenso sobre quais ideologias inspiraram Robinson, talvez as respostas estejam escancaradas nos cantos obscuros da internet que atraem jovens homens desiludidos nos Estados Unidos e no mundo inteiro.
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