Acostumado a lidar com criminosos em operações especiais, policial da elite da PM de Mato Grosso do Sul está preso preventivamente por envolvimento em esquema de corrupção
Uma das pessoas presas preventivamente na Operação Spotless, deflagada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) e pelo Grupo de Apoio Especial na Repressão e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e que atua contra esquema de corrupção e fraudes na prefeitura de Terenos, é o policial militar do Batalhão do Choque Fábio André Hoffmeister Ramires.
Acostumado a ficar na linha de frente com suspeitos nas ruas e criminosos ligados a facções, o terceiro sargento Fábio André Hoffmeister Ramires, segundo as investigações do Ministério Público, quando estava sem farda estaria do “outro lado do balcão”, praticando crimes de colarinho branco, como corrupção ativa e fraudes.
Na operação, que apura pagamentos de propina, desvio de dinheiro público, e uma série de fraudes em licitações, foram presos além do policial do esquadrão de elite da Polícia Militar, nada menos que o prefeito de Terenos, o tucano Henrique Wancura Budke (PSDB).
Outras 14 pessoas também estão entre os presos, incluindo na lista donos de empresas ligadas ao esquema e servidores público. Foram cumpridos, na ocasião, 59 mandados de busca e apreensão.
Fábio, policial militar da ativa, segundo a Promotoria do Patrimônio Público do Ministério Público de Mato Grosso do Sul é sócio oculto da empreiteira Tercam Construções Ltda.
A empresa está em nome da mulher dele, Jucélia Maria de Oliveira, mas ele era ativo nas negociações dentro do esquema de corrupção.
A empresa que ele representava, a Tercam teria participado de um esquema de conluio em licitações, sendo que a de maior valor é de R$ 1,2 milhão. O esquema resultava no pagamento de propina para o prefeito de Terenos, cidade distante 22 quilômetros do Centro de Campo Grande.
Na manhã desta quarta-feira (10) o polícial militar do Choque foi afastado do batalhão pela subcomandante-geral da PM, coronel Neidy Nunes Barbosa Centurião.
A subcomandante alegou “incoveniência” a permanência dele no Batalhão do Choque, e o transferiu para o “Comando Geral/ Diretoria de Gestão do Presídio Militar Estadual”.
Em nota, a Polícia Militar confirmou que esteve presente no cumprimento do mandado de prisão e ainda afirmou que não “compactua com condutas de seus integrantes que possam comprometer a imagem da instituição.
“O fato registrado configura uma ocorrência isolada, que não representa os valores e princípios da corporação e será rigorosamente apurado”, afirmou a PM.
Corrupção
A operação deflagrada em Terenos, município de Mato Grosso do Sul, expôs a dimensão de um suposto esquema de corrupção que, segundo o Ministério Público, manipulava licitações para direcionar obras públicas a um grupo de empresários. A ordem de prisão e de busca e apreensão, assinada pelo desembargador Jairo Roberto de Quadros, do Tribunal de Justiça do Estado (TJ/MS), descreve o funcionamento de uma rede que, em tese, contava com o respaldo do prefeito e o apoio de servidores municipais.
De acordo com a investigação, tratava-se de uma “atuação sistêmica de organização criminosa” voltada a fraudar a competitividade de certames públicos. O método utilizado incluía um revezamento entre empresários, que se alternavam como vencedores das concorrências, garantindo o controle das obras em troca do pagamento de propinas.
Os investigadores também apontam uma “evolução patrimonial de Henrique incompatível com o cargo público exercido”.
O prefeito Henrique Budke teria direcionado valores de propina para aquisição de imóveis e empresas, segundo o documento. Os números reforçam a suspeita: entre 2020 e 2024, o patrimônio declarado por ele saltou de R$ 776.210,57 para R$ 2.468.418,61, um aumento de 318%. Nesse mesmo período, seu salário líquido mensal era de R$ 15.630,83.
Na decisão que autorizou a operação, a Justiça destacou a robustez dos indícios de crimes como organização criminosa, frustração do caráter competitivo de licitação, pagamentos irregulares e corrupção. O documento judicial detalha que as manipulações em licitações começaram em 2021 e incluíam obras como a reforma da Escola Municipal Rosa Idalina Braga Barboza, a construção de calçadas e a substituição de pontes de madeira.
O avanço das investigações foi possível com base em mensagens de WhatsApp, além de quebras de sigilos bancário e telemático. Esses elementos reforçaram a tese de que o prefeito seria o “líder e figura central do grupo”, responsável por receber propinas, muitas vezes em espécie, por meio de intermediários apontados como “testas de ferro”.
Diante desse cenário, o Ministério Público solicitou a prisão preventiva de 16 dos 32 investigados, com o objetivo de “desarticular a organização” e “estancar as supostas condutas criminosas”, que, segundo a acusação, ainda estariam em andamento.
Enquanto o processo judicial avança e a Justiça decide o destino dos presos e da investigação, a população de Terenos acompanha com expectativa a definição sobre quem assumirá o comando da prefeitura e a continuidade dos serviços públicos essenciais.
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