Putin e Modi participam de cúpula organizada por Xi Jinping na China
Líderes da Rússia e da Índia estiveram presentes em cúpula que busca promover governança mundial alternativa e tem a presença de outros 20 governantes da Europa. Crédito: Ricardo Correa de Almeida
WASHINGTON – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu com críticas nesta quarta-feira, 3 ao regime militar em comemoração aos 80 anos do fim da 2ª Guerra Mundial organizado pelo líder chinês, Xi Jinping na madrugada em Pequim. O encontro, que reuniu o presidente russo, Vladimir Putin, e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, foi usado pelo PC chinês para projetar sua força militar e diplomática em contraponto a Washington.
Pouco depois do desfile, Trump disse em um post na sua rede social Truth Social que Xi ignorou o apoio dado pelos EUA à China durante a guerra, e terminou a publicação de forma irônica: “Por favor, transmitam meus mais calorosos cumprimentos a Vladimir Putin e Kim Jong-un, enquanto conspiram contra os Estados Unidos da América”, disse.
Xi, por sua vez, no discurso de abertura do desfile, disse que o mundo enfrenta diante de si uma escolha entre guerra e paz e afirmiu que o avanço da China rumo ao status de superpotência é “imparável”.

Vladimir Putin e Xi Jinping durante desfile militar em Pequim Foto: Alexander Kazakov, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
“A nação chinesa é uma grande nação que não teme a tirania e se mantém firme sobre seus próprios pés”, declarou Xi na tribuna do Portão da Paz Celestial, acima de um grande retrato de Mao Tsé-tung.
Ele traçou uma linha direta entre os sacrifícios da Segunda Guerra Mundial e os desafios que a China afirma enfrentar hoje. “Quando confrontado no passado com uma luta de vida ou morte entre a justiça e o mal, a luz e as trevas, o progresso e a reação, o povo chinês uniu-se em ódio ao inimigo e se ergueu em resistência”, disse ele.
Durante os 90 minutos que durou o desfile China mostrou toda a gama de seus novos armamentos, incluindo drones, submarinos, tanques, armas laser ou aeronaves. Os novos mísseis nucleares intercontinentais DongFeng-5C, com um alcance de 20 mil quilômetros, ocuparam um lugar destacado entre o armamento exposto.
A lista de convidados ressaltou o quanto a divisão entre Pequim e o Ocidente se aprofundou, particularmente devido ao estreito alinhamento da China com a Rússia em sua guerra na Ucrânia. Representantes de alto escalão das principais democracias ocidentais, incluindo os Estados Unidos, estiveram notavelmente ausentes. Mas os líderes de muitas nações do Sudeste Asiático e da Ásia Central compareceram ao desfile, demonstrando o sucesso da China no fortalecimento de parcerias regionais.
“Xi está motivado para obter a aceitação da China como uma potência global central e para revisar o sistema internacional para melhor atender às preferências da China”, disse Ryan Hass, diretor do Centro John L. Thornton da China na Brookings Institution. “Ele vê a presença de outros líderes em seu desfile como uma validação do progresso em direção aos seus objetivos.”

YJ-19, o primeiro míssil hipersônico da China, é exibido em parada militar em Moscou Foto: GREG BAKER /AFP
O que está em jogo para China, Rússia e Coreia do Norte
Xi precisa de energia russa barata e de uma fronteira estável com a Coreia do Norte. Putin espera escapar das sanções ocidentais e do isolamento causado por sua guerra na Ucrânia. Kim quer dinheiro, legitimidade e superar a arquirrival Coreia do Sul.
A China enfrenta sérios problemas internos — graves desigualdades econômicas e de gênero, para citar dois — e um impasse tenso com Taiwan, a ilha autônoma que Pequim reivindica como sua. Mas Xi tentou posicionar a China como líder de países que se sentem prejudicados pela ordem pós-Segunda Guerra Mundial.
“Este desfile demonstra a ascensão da China, impulsionada pela diplomacia inepta de Trump e pela astuta arte de governar do presidente Xi”, disse Jeff Kingston, professor de estudos asiáticos na Universidade Temple, no Japão. “O consenso de Washington se desfez e Xi está angariando apoio para uma alternativa.”
Alguns analistas alertam contra interpretações exageradas sobre os laços Rússia-China-Coreia do Norte. A China permanece profundamente cautelosa com o crescimento da energia nuclear norte-coreana e há muito tempo busca moderar seu apoio — chegando a concordar, por vezes, com sanções internacionais — para tentar influenciar a busca de Pyongyang por armas.
“Embora os laços Rússia-Coreia do Norte tenham retomado uma aliança militar, a China se recusa a retornar ao ano de 1950”, quando Pequim enviou soldados para apoiar a invasão norte-coreana do Sul e a URSS forneceu ajuda militar crucial, disse Zhu Feng, reitor da Escola de Relações Internacionais da Universidade de Nanquim. “É errado acreditar que China, Rússia e Coreia do Norte estejam reforçando a construção de blocos.”
O cálculo de Putin
Para o Kremlin, a presença de Putin em Pequim ao lado de grandes líderes mundiais é mais uma forma de se livrar do isolamento imposto pelo Ocidente à Rússia após sua invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Isso permitiu que Putin assumisse o cenário mundial como um estadista, encontrando-se com uma série de líderes mundiais, incluindo Modi, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian. E a recepção de Putin por Xi é um lembrete de que a Rússia ainda tem importantes parceiros comerciais, apesar das sanções ocidentais que cortaram o acesso a muitos mercados.
Ao mesmo tempo, a Rússia não quer irritar Trump, que tem sido mais receptivo do que seu antecessor, particularmente ao ouvir os termos de Moscou para encerrar sua guerra com a Ucrânia.
“Durante esses quatro dias, durante negociações de todos os tipos, tanto em ambientes formais quanto informais, ninguém jamais expressou qualquer julgamento negativo sobre o atual governo americano”, disse Putin a repórteres, em uma aparente referência à postagem de Trump.
Alexander Gabuev, diretor do Centro Carnegie Rússia-Eurásia, observou que o relacionamento com a China é crucial para a Rússia.
“A Rússia é a principal beneficiária da capacidade da China de fornecer bens de dupla utilização e todas as tecnologias necessárias para contornar as sanções e manter a máquina militar em funcionamento. A China se tornou a principal fonte de receitas de exportação da Rússia, o que está enchendo o cofre de Putin”, disse Gabuev. “Para a China, obviamente, a guerra da Rússia na Ucrânia representa uma distração para os EUA.”
Já a viagem do líder norte-coreano a Pequim aprofundou novos laços com a Rússia, ao mesmo tempo em que trabalhou relação instável com a China.
O Instituto de Estratégia de Segurança Nacional, um think tank afiliado à agência de espionagem da Coreia do Sul, afirmou em um relatório esta semana que a viagem de Kim, sua primeira aparição em um evento diplomático multilateral desde que assumiu o poder em 2011, visa fortalecer os laços com países amigos antes de qualquer potencial retomada das negociações sobre seu programa nuclear com Trump. A diplomacia nuclear dos dois líderes entrou em colapso em 2019.
“Kim também pode reivindicar uma vitória diplomática, já que a Coreia do Norte passou de sancionada unanimemente pelo Conselho de Segurança da ONU por seus programas nucleares e de mísseis ilegais para ser acolhida pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China”, disse Leif-Eric Easley, professor de estudos internacionais na Universidade Ewha Womans, em Seul./ AFP, NYT E AP
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.

























