Três dias após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenar que dois submarinos nucleares fossem “posicionados nas regiões apropriadas” próximas à Rússia, o Kremlin minimizou as ordens do republicano e afirmou que Moscou não deseja se envolver em polêmicas. Na primeira declaração oficial desde os comentários do mandatário americano, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse nesta segunda-feira que os submarinos dos EUA já estavam em missão de combate e rejeitou a ideia de que houve uma escalada.
— Questões muito complexas e sensíveis estão sendo discutidas, [o que], naturalmente, muitas pessoas percebem de forma muito emocional — disse ele, acrescentando que todos devem ser “muito cautelosos” ao tratar de retórica nuclear.
A reação é anunciada enquanto o enviado americano para missões de paz, Steve Witkoff, se prepara para visitar a Rússia — e na semana em que se encerra o prazo anunciado por Trump para que Moscou chegue a um cessar-fogo na guerra contra a Ucrânia, sob risco de enfrentar novas sanções impostas por Washington. Trump afirmou no domingo ser preciso “chegar a um acordo em que as pessoas parem de morrer”, e Peskov disse nesta segunda-feira que “não descartaria a possibilidade” de uma reunião entre Witkoff e Putin ainda nesta semana.
Na última sexta-feira, Trump ordenou que dois submarinos nucleares fossem deslocados em resposta ao que chamou de “declarações altamente provocativas” feitas pelo ex-presidente russo Dmitry Medvedev (2008-2012), atual vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia. Sem especificar se os submarinos eram movidos a energia nuclear ou se estavam armados com ogivas nucleares, Trump sugeriu que estava agindo por precaução, afirmando que “houve uma ameaça” e que os EUA precisavam “ser cuidadosos”.
“Ordenei que dois submarinos nucleares fossem posicionados nas regiões apropriadas, apenas no caso de essas declarações tolas e inflamatórias serem mais do que apenas isso. Espero que este não seja um desses casos”, escreveu o presidente americano nas redes sociais. Falando a repórteres mais tarde no mesmo dia, Trump destacou que Medvedev falou “sobre armas nucleares” — e que, quando isso ocorre, é preciso “estar preparado”.
Medvedev, que nos últimos anos tem adotado uma retórica cada vez mais extremista nas redes sociais, acusou Trump de “jogar o jogo do ultimato” com a Rússia depois que o líder republicano impôs um novo prazo para que o presidente russo, Vladimir Putin, interrompesse a guerra na Ucrânia — reduzindo os 50 dias anunciados no início de julho para apenas “10 ou 12”, encerrados nesta sexta-feira. O ex-presidente russo não respondeu à reação de Trump e não tem estado ativo nas redes sociais desde a publicação da mensagem ofensiva.
— Essa troca de mensagens nas redes sociais foi uma forma nada útil e muito arriscada de fazer diplomacia internacional — disse Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do think tank Defense Priorities, acrescentando que os EUA normalmente mantêm quatro ou cinco submarinos em constante “alerta máximo”. — É provável que já existam submarinos nucleares posicionados em locais de onde poderiam atingir a Rússia, se necessário.
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Sem mencionar diretamente a troca de declarações com Medvedev, Peskov afirmou nesta segunda-feira que, embora “em todo país haja membros da liderança […] com pontos de vista diferentes”, a política externa da Rússia é ditada exclusivamente por Putin.
As relações entre os Estados Unidos e a Rússia melhoraram significativamente após a posse de Trump, em janeiro — embora, nos últimos meses, o presidente americano tenha sinalizado que desconfia de que Putin não esteja verdadeiramente comprometido com o fim da guerra na Ucrânia, iniciada com a invasão em larga escala por Moscou em fevereiro de 2022. Agora, Trump ameaça Moscou com tarifas severas sobre seu petróleo e outras exportações caso um cessar-fogo não seja firmado até o próximo 8 de agosto.
Três rodadas de negociações entre Rússia e Ucrânia neste ano não conseguiram avançar rumo a um acordo para o fim do conflito. Putin também rejeitou as pressões de Trump por uma trégua, declarando que seus objetivos na guerra — “erradicar as causas da crise na Ucrânia e garantir a segurança da Rússia” — permanecem inalterados. Ele ainda afirmou que as conversas entre Moscou e Kiev na Turquia foram “positivas em geral” e, sem citar Trump diretamente, atribuiu a frustração com o conflito a “expectativas excessivas”.
Durante a campanha presidencial de 2024, Trump prometeu encerrar rapidamente a guerra da Rússia na Ucrânia — que já entra em seu quarto ano. Esses esforços, no entanto, ainda não se concretizaram, com Putin mantendo exigências maximalistas por território ucraniano e recusando-se a participar de conversas diretas com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Moscou exige, por exemplo, a neutralidade de Kiev, a redução drástica de suas Forças Armadas e o abandono de suas aspirações de integrar a Otan.
Segundo analistas, é improvável que o Kremlin interrompa imediatamente as hostilidades, já que tropas russas estão conduzindo uma ofensiva recente na Ucrânia e vêm obtendo ganhos territoriais. Enquanto isso, a Ucrânia enfrenta atrasos no envio de armamentos e sofre com a escassez de tropas de combate. Ainda assim, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse na sexta-feira que era “encorajador” o fato de autoridades dos EUA continuarem abertas ao diálogo.
— As discussões substanciais sobre a questão ucraniana que vêm ocorrendo entre Moscou e Washington desde o início do ano têm sido muito úteis e produziram resultados — afirmou Lavrov em comentários publicados no site do Ministério das Relações Exteriores pouco antes do anúncio de Trump sobre os submarinos.
(Com Bloomberg, AFP e New York Times)
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