Um ano após protagonizarem a maior troca de espiões desde o fim da Guerra Fria, veio à tona o motivo da queda dos dois agentes de Moscou que viveram com identidades falsas na Argentina por mais de uma década. Agora se sabe que cometeram dois erros: viajaram à Copa do Mundo de 2018 como torcedores argentinos para apoiar a seleção, mas usaram passaportes diplomáticos russos, e apareceram numa foto misteriosa na casa da família.
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A falha do passaporte foi detectada por agentes do serviço secreto esloveno após uma investigação que durou meses, iniciada a partir de uma pista da inteligência britânica. Conhecido nesse meio por apenas uma letra, “C”, o chefe do MI6 reportou ao seu homólogo esloveno, Joško Kadivnik, que suspeitavam que duas pessoas residentes na Eslovênia estariam espionando para Moscou. Não deu mais detalhes, talvez por não querer ou por não poder.
A partir daí, começou uma verdadeira caçada, que teve sucesso devido a outro erro cometido pelos espiões que entraram pela primeira vez na Argentina em 2009, moraram em um prédio na rua O’Higgins, nº 2200, na cidade de Buenos Aires entre 2012 e 2017, e, desde então, viajaram várias vezes à Eslovênia até 2022, quando se instalaram definitivamente e foram presos.
Em sua quarta e última identidade, os espiões se apresentavam como Ludwig Gisch e María Rosa Mayer Muños, e tiveram dois filhos no Hospital Italiano de Buenos Aires. Sophie nasceu em 2013; Daniel, em 2015. Mas ambos cresceram sem saber a verdade: que seus pais eram Artem Dultsev e Anya Iudina, que eram russos e que espiavam para o Kremlin.
A fachada da família argentina que morava em Liubliana, capital da Eslovênia, começou a ruir, no entanto, quando os oficiais de inteligência eslovenos descobriram que a família Dultsev havia viajado à Rússia em 2018 para assistir a pelo menos uma partida da Copa do Mundo. Qual? Argentina x Croácia.

A Argentina havia empatado por 1 a 1 com a Islândia em Moscou e precisava vencer a Croácia para acalmar os ânimos. Milhares de torcedores argentinos viajaram a Nizhny Novgorod para apoiar Lionel Messi e o restante da equipe. Mas os gols de Ante Rebić, Luka Modrić e Ivan Rakitić colocaram a seleção albiceleste contra a parede. O resultado pouco importava para os espiões que se faziam passar por argentinos.
— Aproveitamos a situação e fomos à Rússia como estrangeiros — relataria Dultsev, anos depois. — Fomos a algumas partidas, incluindo uma na cidade natal da Anya, Nizhny Novgorod, onde assistimos ao jogo entre Argentina e Croácia.
A Copa e a seleção argentina deram aos Dultsev uma desculpa perfeita para retornar à Rússia, onde poderiam se reunir com seus superiores, receber apoio logístico e também permitir que seus pais conhecessem os netos — embora separados pela língua (Sophie e Daniel não falavam russo) — e por uma limitação. Qual? Não poderiam revelar que eram os avós.
— Foi na dacha dos meus pais, onde ambas as famílias se reuniram. Claro que as crianças não entenderam nada: não sabiam o que era aquela dacha nem por que seus avós estavam ali. Eram pequenos demais para compreender — contaria Anna, sorrindo, anos depois. — Apesar disso, achamos importante para eles. Iriam se lembrar e isso os ajudaria a se adaptar quando voltássemos para a Rússia. Afinal, a maioria dos filhos de ‘ilegais’ volta ao país de origem quando já cresceu, e não é fácil aceitar essa nova realidade.
Mas por razões ainda desconhecidas, os espiões russos tomaram uma decisão que, em retrospecto, foi um erro grave. Não viajaram à Rússia com seus passaportes argentinos, mas sim com passaportes diplomáticos russos — e, portanto, com seus nomes reais. Foi um descuido? Ou uma decisão deliberada para não deixar rastros nos passaportes argentinos de que haviam estado na Rússia?
Jornalistas do The Wall Street Journal levantaram uma terceira hipótese: que não quisessem solicitar um visto para entrar na Rússia com os passaportes argentinos. Mas essa possibilidade é inválida, pois cidadãos com passaporte argentino não precisavam de visto para visitar a Rússia como turistas por até 90 dias.
De qualquer forma, foi um erro. Os agentes de inteligência eslovenos detectaram que dois cidadãos russos com passaportes diplomáticos haviam viajado à Rússia junto com duas crianças com cidadania argentina. E, a partir daí, começaram a investigar possíveis conexões familiares e sociais dos dois na Rússia.
Foi assim que, cruzando fontes russas e publicações em redes sociais, o serviço secreto esloveno encontrou uma foto publicada por quem seria o pai de Artem. Ao ampliar a imagem, notaram que atrás de uma pessoa em primeiro plano — que seria, por sua vez, a mãe do espião — havia um retrato pendurado na parede de um casal recém-casado. Quem eram os noivos? Os espiões. Um dado importante, já que o casamento russo foi em 2004, embora depois tenham se casado novamente em Buenos Aires, em 2015, como parte da farsa.
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Com base em informações fornecidas pelo MI6 e pela CIA dos Estados Unidos, os agentes eslovenos avançaram para a fase seguinte. Monitoraram as atividades e rotinas da família “Gisch” na capital eslovena por meses, revisaram suas transações bancárias e planejaram a prisão no momento em que transmitissem informações a Moscou.
E assim foi, segundo revelou o portal esloveno N1. Os espiões foram presos no dia 5 de dezembro de 2022, uma segunda-feira. Por quê? Porque o serviço secreto esloveno sabia que era nesse dia da semana que costumavam se comunicar com o “Centro”; ou seja, o quartel-general do SVR, o serviço de espionagem externo da Rússia.
Depois de passarem 19 meses e 26 dias em prisões separadas de segurança máxima — enquanto Sophie e Daniel ficaram em um orfanato esloveno —, os Gisch foram condenados pelo Tribunal Distrital de Liubliana, na que se tornou a primeira sentença por espionagem da História da Eslovênia.
Vinte e quatro horas depois, no entanto, Artem Dultsev, Anya Iudina e seus filhos argentinos protagonizaram a mais importante troca de espiões e prisioneiros desde a queda do Muro de Berlim. Há exatamente doze meses, aviões dos Estados Unidos, Rússia, Noruega, Alemanha, Bielorrússia e Eslovênia pousaram em Ancara, na Turquia, onde a troca foi completada, e duas aeronaves decolaram rumo a Washington e Moscou.
— Quero agradecer a lealdade de vocês ao juramento, ao dever e à pátria, que não os esqueceu — disse Vladimir Putin aos espiões na pista. Mas para Sophie e Daniel, que não falavam russo, disse apenas duas palavras em espanhol: “Buenas noches”.
Sophie tinha então 11 anos; Daniel, 9. Segundo revelaria o Kremlin pouco depois, um deles perguntou aos pais: “Quem era o senhor com flores que nos cumprimentou na pista?”.
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