O Banco Central manteve a taxa Selic em 15% ao ano no Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira e indicou que a taxa deve continuar nesse nível na próxima reunião, em setembro. No comunicado da decisão, o BC manteve um tom cauteloso e reforçou que os juros devem permanecer altos por um período “bastante prolongado”, em um cenário de elevada incerteza, que inclui o tarifaço dos Estados Unidos sobre o Brasil.
A decisão do Copom de manter a Selic em 15% já era amplamente esperada pelo mercado financeiro. Todas as 123 instituições consultadas pelo Valor Pro projetavam a estabilidade da Selic em 15%. Na reunião anterior, em junho, o colegiado já havia antecipado uma interrupção do ciclo de alta de juros.
Nesta quarta, o BC disse que antecipa uma “continuação da interrupção” do ciclo de alta, sinalizando manutenção em 15% no próximo Copom, em setembro. O ciclo de alta da Selic, iniciado em setembro de 2024, elevou os juros em 4,50 pontos percentuais, levando a taxa ao maior patamar desde julho de 2006. Segundo o colegiado, “o cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária”.
“Em se confirmando o cenário esperado, o Comitê antecipa uma continuação na interrupção no ciclo de alta de juros para examinar os impactos acumulados do ajuste já realizado, ainda por serem observados, e então avaliar se o nível corrente da taxa de juros, considerando a sua manutenção por período bastante prolongado, é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”, disse o BC.
O Copom ainda repetiu que “seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado”.
Dentre os fatores de incerteza, estão a adoção pelos EUA de uma tarifa de importação adicional sobre os produtos brasileiros. Nesta quarta-feira, Trump assinou um decreto oficializando a sobretaxa de 50% sobre parte das importações do Brasil com destino aos EUA. Centenas de produtos ficaram de fora, contudo, como aviões, suco de laranja, aço e combustíveis.
“O Comitê tem acompanhado, com particular atenção, os anúncios referentes à imposição pelos EUA de tarifas comerciais ao Brasil, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza.”
O Copom destacou também que o ambiente externo está “mais adverso e incerto” devido à conjuntura e à política econômica americana, sobretudo de suas medidas comerciais e fiscais. Na última reunião, o colegiado havia manifestado que tinha mostrado uma leve melhora, com a reversão parcial das tarifas do Estados Unidos sobre a China, mas ainda não havia informações sobre os planos de Trump para o Brasil.
“Consequentemente, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos têm sido afetados, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige particular cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica.”
No cenário doméstico, após a definição sobre o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o BC reforçou que segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal podem afetar a política monetária e os ativos financeiros.
O Copom ainda afirmou que a moderação no crescimento da atividade econômica tem seguido o cenário esperado, mas ponderou que o mercado de trabalho continua apresentando dinamismo, o que vai na direção contrária de uma acomodação da inflação, como pretende a autoridade monetária.
Em relação à inflação, se limitou a dizer que as divulgações recentes ainda mostram o IPCA acima da meta de inflação, que é de 3,0%, com intervalo de tolerância de 1,5% a 4,5%. O BC ainda manteve suas projeções de inflação frente ao Copom anterior, que também seguem superiores a 3,0%.
A expectativa para 2025 ficou em 4,9%, para 2026, houve manutenção em 3,6% e, para o primeiro trimestre de 2027, o prazo com o qual o Copom trabalha atualmente para colocar a inflação na meta, continuou em 3,4%
Em carta endereçada ao Ministério da Fazenda para justificar o descumprimento da meta de inflação em junho, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que espera que o IPCA volte aos limites da meta no primeiro trimestre de 2026. Mas, segundo as estimativas indicadas no Relatório de Política Monetária, o BC não consegue chegar a 3,0% até o fim de 2027, cuja projeção é de 3,2%.
“O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho. Para assegurar a convergência da inflação à meta em ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado”, disse o Copom.
No comunicado desta quarta, o comitê também ressaltou que os riscos para a inflação seguem mais altos do que o usual, tanto para cima quanto para baixo.
O economista-chefe do ASA e ex-diretor do BC, Fábio Kanczuk, destaca que o Copom faz um esforço para afastar as apostas do mercado em um corte de juros ainda este ano, especialmente ao usar uma expressão inovadora para sinalizar a manutenção da Selic em setembro, a “continuação da interrupção” do ciclo.
— O BC está tentando dizer de alguma forma que ainda pode subir, está prolongando a interrupção. Da mesma forma, disse que que a desaceleração da economia já era esperada e ainda adiciona que o mercado de trabalho está apertado. Está se esforçando de todo jeito para evitar que achem que pode cortar os juros no fim do ano.
Kanczuk, porém, mantém a aposta de que o Copom deve reduzir a Selic para 14,75% na última reunião do ano após a desaceleração mais clara da economia.
O economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira, concorda que o BC manteve um tom duro, apesar de notícias mais favoráveis de dados de inflação e moderação da atividade.
— É para evitar que o mercado de juros comece a precificar cortes prematuros na taxa Selic. É o BC utilizando de maneira eficiente um instrumento que tem que é a comunicação — disse Oliveira, que também acredita em um primeiro recuo de juros em dezembro.
Quanto à menção ao tarifaço, o economista do Pine diz que o BC foi correto em ser cauteloso, até porque o cenário muda muito rapidamente. Kanczuk avalia que o efeito das tarifas no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve ser pequeno, com uma queda de cerca de 0,3pp. Sobre a inflação, o impacto não é claro, porque uma possível sobre de produtos no mercado interno tende a baratear preços, mas que pode ser contrabalançado pelo efeito no dólar.
Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, destaca que a menção do BC à cautela na questão do tarifaço indica que qualquer mudança no plano de voo da autoridade monetária depende da dissipação da incerteza. Ele espera manutenção da taxa Selic em 15% no fim de 2025.
Segundo Helena Veronese, economista-Chefe da B.Side Investimentos, também acredita em manutenção dos juros em 15% pelo menos até o final deste ano.
“A decisão e o comunicado de hoje mostram é que pouca coisa mudou na condução da política monetária: o Copom segue se dizendo cauteloso, os juros deverão continuar em 15% por bastante tempo, e nenhuma sinalização de possíveis cortes foi dada. Até mesmo falas sobre o tarifaço, que eram esperadas neste comunicado, se restringiram a uma única frase”, disse, em relatório.
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