O balão de São João vai subindo e, com ele, os cachês dos artistas que se apresentam durante as festas juninas em estados do Nordeste. Mas isso não parece ser problema para cidades que, embora enfrentem situações de emergência, crise fiscal e até atrasos salariais, têm destinado cifras milionárias para a realização das festividades. Nomes como Wesley Safadão chegam a receber R$ 1,1 milhão por noite. O cantor de forró é seguido por uma extensa lista de atrações que se aproximam da cifra, entre elas Luan Santana, Ana Castela, Simone Mendes, Alok, Leonardo e as duplas Zé Neto e Cristiano e César Menotti e Fabiano, só para citar alguns.
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Na Bahia, Bom Jesus da Lapa — com decreto de emergência em vigor — investiu mais de R$ 2 milhões no São João deste ano. Parte desse valor foi usada para contratar Safadão, que lidera o ranking de cachês mais altos. Ele também se apresenta nas cidades baianas de Cruz das Almas, Jequié e Oliveira dos Brejinhos; e em Caruaru, em Pernambuco.
Atrás apenas da capital, Salvador, que destinou R$ 18,7 milhões à contratação de 160 atrações, Cruz das Almas é quem gastará mais no interior, com R$ 9,5 milhões. Jequié e Irecê seguem o ranking com R$ 8,9 milhões e R$ 7,9 milhões. Ambas contrataram, inclusive, artistas que fogem da tradição do forró e do arraial nordestino, turbinados pelos sertanejos. As programações têm, por exemplo, o DJ Alok, com seu cachê de R$ 750 mil.
Os dados estão em plataformas de monitoramento das despesas criadas pelos Ministérios Públicos da Bahia, de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, que tentam barrar os excessos. As ferramentas podem ser acessadas pela internet e ajudam moradores a questionar os cofres abertos e a fazer denúncias. No ranking dos maiores gastadores estão cidades em estado de emergência por conta dos efeitos da seca, de enchentes ou por crises financeiras.
Outros municípios baianos em emergência, como Senhor do Bonfim, Quijingue, Livramento de Nossa Senhora e Tucano, também figuram entre os maiores investimentos. Tucano empregou R$ 4,2 milhões, dos quais R$ 625 mil para a dupla sertaneja Matheus e Kauan. A cidade enfrenta problemas de caixa e precisou editar medidas de contenção de despesas, como suspensão de pagamentos de diárias e gratificações ao funcionalismo. A seca ainda provoca efeitos na região, em especial na agricultura familiar.
Situação de emergência
Quijingue, que também enfrenta a seca, no início deste ano decretou emergência financeira. Não houve o pagamento de décimo terceiro de 2024 e a dívida foi herdada pela atual administração que, segundo servidores, ainda não apresentou uma solução. O município destinou R$ 5,2 milhões — o equivalente a 40% dos gastos com a saúde — para contratação de 26 atrações. A principal é a dupla César Menotti e Fabiano, com seu cachê de R$ 480 mil. Quijingue tem um Orçamento de R$ 117 milhões e emprega R$ 13 milhões em saúde e R$ 55 milhões, em educação.
Somente na Bahia, há previsão de gastos de R$ 453 milhões com as atrações, somando as despesas dos 417 municípios com as festas. A maior parte é bancada por verbas municipais. Serão 1.278 artistas neste ano, com cerca de três mil apresentações até o final de julho.
Já em Pernambuco, os gastos divulgados na plataforma do MP por 101 prefeituras, das 184 do estado, já somam R$ 95 milhões. O total deve aumentar até o final de julho, quando as cidades encerram as prestações de contas na ferramenta.
Vitória de Santo Antão, município pernambucano, ocupa a quinta posição em gastos com R$ 3,1 milhões para os festejos. Só o cantor Luan Santana receberá da cidade, em situação de emergência, R$ 985 mil.
O promotor Hodir Melo, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Patrimônio Público do Ministério Público de Pernambuco, chama a atenção para normas determinadas às cidades em situação de emergência e que serão cobradas:
— Não poderão usar recursos federais e estaduais repassados devido à calamidade pública para as festas; devem elaborar e apresentar um estudo técnico com o impacto orçamentário e precisam evitar a suplementação orçamentária para realização dos eventos.
Já a promotora de Justiça e coordenadora do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Proteção à Moralidade Administrativa do MP da Bahia, Rita Tourinho, ressalta que a plataforma de monitoramento permitiu à população fiscalizar gastos e forçou uma unificação dos cachês dos artistas. Em alguns casos, era comum um cantor cobrar mais de uma cidade do que de outra. Os prefeitos forçaram, então, o nivelamento por baixo.
— O acompanhamento pela sociedade é importante, há um controle social. O MP não pode obrigar o prefeito a deixar de usar uma verba não obrigatória (carimbada) em um show, mas a sociedade pode pressioná-lo e sugerir o uso em outras áreas — diz Rita, ao citar situações em que o MP impede despesas. — Não permitimos gastos excessivos em cidades com salários atrasados, crise no atendimento da saúde ou que não emprega verbas na educação.
A prefeitura da Vitória de Santo Antão informou que o nome da cidade foi incluído no Decreto Estadual de situação de emergência “sem consulta prévia” e que a organização do São João ocorreu com “planejamento e responsabilidade fiscal”. “O evento gera milhares de empregos diretos e indiretos, fomenta o comércio, atrai turistas injetando mais de R$ 23 milhões na economia”. Procuradas, as demais cidades não retornaram. Em declarações recentes, os prefeitos defendem que as festas movimentam a economia local.
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