A conta da assistência militar dos Estados Unidos chegou para a Ucrânia, em guerra com a Rússia há três anos. Com o retorno à Casa Branca, em 20 de janeiro, Donald Trump passou a cobrar algum tipo de compensação pelos US$ 190 bilhões (em sua conta seriam mais de US$ 500 bilhões) destinados a fortalecer as tropas ucranianas no campo de batalha. Um dos caminhos para a restituição, segundo o republicano, seria firmar um acordo de minerais com Kiev, cujo subsolo é repleto de terras-raras.
Pressionada, a Ucrânia aceitou na quarta-feira 26 os termos para que empresas americanas tenham acesso aos minerais do país, com a previsão de que o presidente Volodymyr Zelensky aterrisse em Washington, capital americana, para assinar o pacto nesta sexta-feira, 28. Os benefícios para a Casa Branca parecem ser claros: dos 50 minerais considerados críticos para os Estados Unidos, a Ucrânia tem mais de 20 espalhados pelo seu território. Mas há uma nuvem de dúvidas sobre o quão lucrativa será a empreitada, tida por Trump como “um grande negócio”.
“Uma coisa é ter um acordo que fala sobre como podemos gerenciar sua extração e sua receita”, disse Tom Moerenhout, professor adjunto associado da Escola de Relações Internacionais e Públicas da Universidade de Columbia, à agência de notícias Associated Press. “Outra coisa completamente diferente é realmente ter projetos extrativos, realmente ter operações de mineração acontecendo, e isso é algo que o acordo não garante.”
Mediante o acordo, os Estados Unidos e a Ucrânia estabeleceriam um Fundo de Investimento de Reconstrução para coletar e reinvestir receitas de fontes ucranianas, incluindo minerais, hidrocarbonetos e outros materiais extraíveis. Kiev contribuiria para o fundo com 50% da receita, subtraindo despesas operacionais, até que as contribuições atinjam a soma de US$ 500 bilhões. Washington, por sua vez, estabeleceria um compromisso financeiro de longo prazo para o desenvolvimento de uma “Ucrânia estável e economicamente próspera”.
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Quais minerais estão em jogo
Outro fator que preocupa os céticos é o fato de os dados geológicos da Ucrânia serem baseados em mapas datados da extinta União Soviética (1922-1991). Não se sabe, portanto, o quão acessíveis serão as 17 terras-raras do país, como são chamados subconjuntos de minerais críticos que costumam aparecer em baixas concentrações, o que dificulta o processo de extração.
A China, por sua vez, já domina a técnica e está por trás de 90% do processamento global desses recursos. Tais elementos — como lítio, cobalto e níquel, que podem ser usados em eletrônicos de consumo, infraestrutura de energia verde e equipamentos militares — também pairam sobre a guerra comercial de Trump, principalmente agora que ele aplicou uma tarifa de 10% a todas as importações chinesas.
Entre os minerais críticos em solo ucraniano estão o itérbio e o lantânio. O primeiro é usado em lasers infravermelhos, reações químicas, baterias recarregáveis e fibras ópticas, ao passo que o segundo está presente em baterias, vidros especiais e no refino de petróleo. O país também conta com depósitos de titânio, usado em dispositivos aeroespaciais, marítimos e médicos; lítio, vital para baterias; urânio, empregado para energia nuclear, equipamentos médicos e armas; além de grafite e manganês, utilizados em baterias de veículos elétricos.
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Problemas EUA-Ucrânia
Apoiado por países europeus, Zelensky reclama de estar sendo excluído das negociações de paz, que estão sendo lideradas pelos Estados Unidos, acusando Trump de deixá-lo em segundo plano para privilegiar o lado russo. Em resposta às críticas do homólogo ucraniano, o líder dos EUA alegou que Zelensky “não é importante” para as discussões sobre o fim da guerraa, por supostamente tornar “muito difícil fechar acordos”.
Durante uma reunião com governadores dos Estados Unidos na semana passada, Trump também afirmou que teve “conversas muito boas” com Putin, ao passo que não teve conversas “tão boas” com a Ucrânia. Ele argumentou que os representantes ucranianos “não têm as cartas, mas jogam duro, e você fica cansado disso”. “Não vamos deixar isso continuar”, concluiu.
Os Estados Unidos atuam como o principal mediador da guerra na Ucrânia, mas o retorno do republicano à Casa Branca mudou as regras do jogo. Seu antecessor, Joe Biden, era aliado declarado de Kiev, ao passo que Trump tem aproximado os laços com Moscou. Entre os dois lados, Trump escolheu conversar primeiro com o presidente russo sobre as negociações para o fim do confronto.
A situação ganhou contornos ainda mais tensos após a Ucrânia ser excluída da mesa de negociações numa reunião em Riade, capital da Arábia Saudita. Em meio às críticas do presidente ucraniano sobre a ausência de um convite, Trump culpou Kiev pela guerra, iniciada após tropas russas invadirem o país vizinho. Além disso, acusou Zelensky de ser um “ditador sem eleições” (seu mandato expirou em maio passado, mas não houve novo pleito porque o país está em estado de guerra).
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