5 pontos para entender a crise dos Correios
Como a estatal, que era lucrativa, agora precisa de um socorro de R$ 20 bilhões para fechar as contas. Crédito: Gustavo Côrtes
BRASÍLIA – Com um prejuízo de R$ 6,05 bilhões no acumulado até o terceiro trimestre deste ano, os Correios aguardam autorização do Tesouro Nacional para conseguir fechar a contratação de um empréstimo de R$ 20 bilhões com aval da União.
A ideia é que o dinheiro seja usado para alongar dívidas, pagar fornecedores e salários, financiar um Programa de Desligamento Voluntário (PDV) e garantir investimentos que possam reposicionar a estatal no mercado.
Cinco bancos se interessaram na concessão do empréstimo, e a proposta foi aprovada pelo Conselho de Administração dos Correios no último sábado, 29, mas ainda depende de aprovação da documentação pelo Tesouro.

Fachada do edifício sede da Empresa de Correios e Telégrafos, em Brasília Foto: André Dusek/Estadão
Dessa forma, a União honrará os pagamentos caso haja inadimplência pela estatal, reduzindo o risco para os bancos. A taxa de juros do empréstimo deve ser próxima de 136% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário).
O financiamento deve ser feito por um consórcio de cinco bancos: Banco do Brasil, Citibank, BTG Pactual, ABC Brasil e Safra.
Os Correios têm pressa para viabilizar a operação de crédito, porque a estatal precisa não só garantir recursos para o pagamento da folha de pagamentos, como regularizar pendências com fornecedores. Isso é visto como crucial pela atual gestão para que a empresa recupere a performance no setor de entregas, a confiança de clientes e tenha aumento de receitas.
Especialistas, contudo, são céticos em relação à operação. Um ex-presidente da estatal chegou a classificar o plano como “morte assistida”, como mostrou o Estadão.
Uma análise detalhada do balanço dos Correios mostra que a estatal enfrenta uma combinação perversa, com queda de receita e aumento de despesas.
Nos primeiros nove meses, as receitas dos Correios recuaram 12,72%, caindo de R$ 14,15 bilhões, em 2024, para R$ 12,35 bilhões, em 2025. As despesas gerais e administrativas aumentaram 53% no período, de R$ 3,13 bilhões para R$ 4,81 bilhões.
Outro grupo de gastos que também subiu fortemente foi as despesas financeiras, de R$ 466 milhões para R$ 1,09 bilhão, um aumento de 133%.
O que prevê o plano de recuperação
Segundo os Correios, o plano de recuperação prevê os seguintes pontos:
- Estabilização. Com o empréstimo de R$ 20 bilhões, o objetivo é promover a recuperação da liquidez da companhia e a retomada da operação para a estabilização do nível de receitas;
- Reorganização. Para o período de 2026 e 2027, plano dos Correios prevê medidas estruturais, como queda nas despesas, reorganização de unidades que apresentam baixa eficiência, avanço na automação logística, redução do déficit do Postal Saúde — que chegou a R$ 775,4 milhões nos nove primeiros meses deste ano —, entre outros;
- Crescimento. A partir de 2027, a estatal prevê retomar a sua expansão por meio de “parcerias estratégicas; adoção de tecnologia de ponta; ajustes no modelo de negócio; ampliação da competitividade no mercado logístico; fortalecimento da marca”.
“A administração dos Correios está totalmente comprometida em conduzir esse processo com diálogo, responsabilidade e transparência. É um plano robusto, com ações firmes que exigirão compromisso com o resultado esperado, pois todas as iniciativas serão fundamentais para assegurar o futuro dos Correios enquanto uma empresa pública”, informou a estatal no seu balanço.
Como mostrou o Estadão, o empréstimo de R$ 20 bilhões é maior do que qualquer outra garantia concedida pela União para estatais, Estados e municípios nos últimos 15 anos.
A crise dos Correios provocou a queda de Fabiano Silva da presidência da estatal. Pressionado, ele pediu demissão em julho deste ano. Silva é integrante do Grupo Prerrogativas, que reúne advogados ligados ao PT. Ele atribuiu prejuízo da empresa à taxação de compras internacionais – o imposto de até US$ 50 cobrado para a importação de encomendas – que ficou conhecido como “taxa das blusinhas”.
O atual presidente Emmanoel Schmidt Rondon foi escolhido para assumir os Correios apenas em setembro deste ano. Ele é funcionário de carreira do Banco do Brasil e é ligado ao setor financeiro. O Centrão estava de olho no cargo.
Piora nas projeções
A crise dos Correios levou o governo a ampliar a projeção de déficit nas empresas estatais este ano de R$ 5,504 bilhões para R$ 9,208 bilhões.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, classificou como “graves” e “estruturais” os problemas dos Correios. Ele também disse que o impacto fiscal pode ser maior em 2026 do que o deste ano.
“Eu não tenho o número fechado, nós vamos ter que nos debruçar em cima do plano assim que apresentado pelos Correios; mas a gente tem, sim, uma situação grave que demanda atenção”, disse.
A empresa também abriu um Programa de Desligamento Voluntário. Ele foi aberto no ano passado e encerrado em agosto deste ano. Segundo a companhia, 3.784 empregados aderiram ao PDV. Rondon também pretende adiar ao máximo a convocação de aprovados em concurso realizado em dezembro de 2024.
Discover more from FATONEWS :
Subscribe to get the latest posts sent to your email.





















