Em meio ao surto de hepatite A em Belo Horizonte, os casos da doença neste ano já superam em 50% o total registrado em todo o ano de 2024. Entre janeiro e 20 de agosto, foram diagnosticados 273 casos da enfermidade, quase cem a mais do que no ano passado, segundo dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Homens na faixa etária entre 20 e 40 anos são os mais afetados. Especialistas destacam alteração no perfil dos infectados e alertam que o sexo sem proteção tem impulsionado a disseminação do vírus.
A disparada dos casos acontece desde o último ano, quando 179 foram registrados. Em 2023, a capital mineira havia anotado apenas seis diagnósticos da enfermidade. Com o total de casos em 2025, a cidade já soma aumento de 4.450% em menos de dois anos. A filha de Adriana Reis*, de 41 anos, está entre as pessoas infectadas por hepatite viral neste ano. Ela conta que a família foi pega de surpresa com o diagnóstico, inicialmente tratado como uma infecção urinária.
“Mas a dor foi persistente, além de uma dificuldade na alimentação, então achamos que poderia se tratar de uma gastrite. Cerca de uma semana depois, as dores se intensificaram, voltamos ao hospital e os médicos disseram que era hepatite. Foi um susto grande, os exames mostraram uma função hepática muito comprometida”, conta.
A mãe acredita que a filha tenha sido infectada por água ou alimento contaminado. “A forma mais provável foi na água, que ela estava reclamando de um gosto de barro. Mas nem eu nem o pai dela fomos contaminados. Agora ela está com uma dieta restrita, sem glúten, sem lactose e sem açúcar, para melhorar as funções do fígado”, afirma. O gosto de barro na água da capital mineira descrito pela filha de Adriana* foi alvo de polêmica nas redes sociais. Internautas denunciaram ainda cheiro de mofo na água que chega às torneiras e levantaram a possibilidade de transmissão de doenças.
Em nota, a Copasa afirmou que não é possível estabelecer qualquer relação entre o aumento do número de casos de hepatite A no município de Belo Horizonte e a água consumida pela população. Segundo a empresa, a água distribuída para a população passa por um “rigoroso processo de tratamento, atendendo a todos os padrões de potabilidade definidos pelo Ministério da Saúde”. A estatal esclarece ainda que os vírus, como o da hepatite, são eliminados pelos níveis de cloro mantidos na água, em conformidade com a legislação.
“Em Belo Horizonte são realizadas, em média, 10.000 coletas de amostras e aproximadamente 45.000 análises mensais, distribuídas entre os pontos de controle operacional e de vigilância da qualidade da água. Essas ações têm como objetivo garantir a integridade do sistema de distribuição e a manutenção da qualidade da água até o ponto de consumo”, afirma.
Sexo desprotegido é principal forma de transmissão
Embora a ingestão de água ou alimentos contaminados seja uma forma conhecida de transmissão da doença, autoridades de saúde destacam que, nos casos atuais, a principal via de contaminação é outra: o sexo sem preservativo.
“Estudos têm mostrado que a contaminação tem acontecido principalmente com homens que fazem sexo com homens. Isso porque sabemos que a hepatite viral, principalmente o tipo A, é transmitida por via fecal-oral e, com isso, também por relação sexual. Isso mostra que, para além da vacinação, a questão da exposição sexual sem proteção favorece a transmissão desses casos também”, alerta o diretor de Promoção à Saúde e Vigilância Epidemiológica da Prefeitura de BH, Paulo Roberto Corrêa.
Do total de casos registrados na capital mineira, quase 80% das ocorrências foram registradas em homens na faixa etária entre 20 e 40 anos. A realidade, conforme o diretor, mostra uma mudança no perfil de contaminados e da principal forma de transmissão.
“Antes da introdução da vacina contra a hepatite A, ela era uma doença muito incidente em crianças. Mas, quando foi implantada a imunização, o número de casos em crianças despencou; praticamente não há casos em crianças. Hoje, aquelas pessoas que não se vacinaram, principalmente adultos jovens, sobretudo homens que têm relações com homens, estão agora suscetíveis a adquirir a doença”, pontua.
Vacinação é prevenção
Para tentar diminuir o número de casos, em abril deste ano, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou,a nível nacional, o público alvo da vacina contra hepatite A, até então ofertada para crianças, de 15 meses de idade a 4 anos, e imunossuprimidos. Foram incluídos usuários de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) — pessoas que não têm HIV, mas tomam medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco de contrair o vírus — e contactantes sexuais e domiciliares de casos confirmados da doença.
O diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti, explica que a ampliação foi definida após teste em Curitiba (PR) apresentar queda de casos após imunização de usuários de PrEP. “Observamos que a contaminação está muito associada a homens que fazem sexo com homens. Essa ocorrência nesse grupo expõe outros grupos da sociedade. Ano passado Curitiba teve uma alta semelhante e ampliamos a vacinação para quem toma PrEP. Depois disso, a doença controlou”, pontua.
Vacinação em Minas é lenta
Desde a ampliação, segundo dados do Ministério da Saúde, Minas recebeu cerca de 35 mil doses da vacina contra hepatite A. Até o momento, entretanto, pouco mais de 5 mil pessoas foram imunizadas. Cerca de 31 mil doses estão armazenadas na Rede de Frio do Estado.
Para o diretor do PNI, é necessário que o Estado mapeie os usuários de PrEP e faça ações de conscientização sobre a importância da vacinação. “Se você imunizar o grupo de jovens e adultos homens, maior parte dos contaminados, conseguimos controlar a hepatite em toda a população. Por isso a conscientização para todas as pessoas que fazem uso de PrEP é: elas podem e devem tomar a vacina da hepatite A para se proteger e proteger toda a população”, finaliza.
Na capital mineira, cerca de 4.800 pessoas fazem uso da PrEP. Entre janeiro e agosto, foram aplicadas aproximadamente 16.400 doses, incluindo crianças, adultos, usuários de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e contatos de casos confirmados da doença. Do total, cerca de 3 mil doses foram aplicadas em pessoas maiores de 5 anos. Atualmente, segundo a PBH, os estoques da vacina contra hepatite A estão abastecidos.
O que diz o Governo de Minas?
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) confirmou que recebeu 35 mil doses da vacina contra hepatite A (adulto) do Ministério da Saúde. Do total, o município de Belo Horizonte recebeu 7 mil doses para este público. Na quarta-feira (27/8), o Sistema de Informação de Insumos Estratégicos (Sies) registrava 20.205 doses em estoque na Central Estadual de Rede de Frio, destinadas à distribuição conforme solicitação das Unidades Regionais de Saúde, de acordo com a demanda de usuários do PrEP.
Segundo a pasta, até o momento, de acordo com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), Minas Gerais aplicou 7.926 doses da vacina contra hepatite A (adulto) em 2025, conforme registros do PNI. Não é possível determinar quantas dessas foram para usuários de PrEP. Segundo dados do Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom), entre janeiro de 2018 e agosto deste ano, 17.744 usuários de PrEP estavam cadastrados no sistema de saúde de Minas Gerais.
A secretaria informa ainda que o Estado conta ainda com políticas de descentralização da PrEP, incluindo o Crie Virtual para municípios sem unidades físicas e a ampliação da rede de Crie presenciais, hoje com 12 unidades em funcionamento.
*A reportagem optou pelo uso de um nome fictício para preservar a identidade da fonte
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