Crianças privadas de alimentação suficiente podem sofrer com uma série de problemas de saúde. Doenças graves e morte são algumas das ameaças, mas mesmo aqueles que sobrevivem podem enfrentar desafios de saúde por toda a vida. Os jovens palestinos, especialmente aqueles com menos de cinco anos, são particularmente vulneráveis na Faixa de Gaza, onde Israel impôs restrições à entrada de ajuda humanitária durante toda a guerra, chegando a fechar completamente as passagens fronteiriças em alguns momentos.
Nos últimos meses foram registrados em Gaza os níveis mais altos de desnutrição desde o início do conflito, em outubro de 2023, e a maior cidade da região foi oficialmente declarada em situação de fome por um painel de especialistas em segurança alimentar.
Segundo dados reunidos por agências humanitárias sob coordenação do Unicef, agência das Nações Unidas para a infância, 16% das crianças examinadas em Gaza, com idades entre seis meses e cinco anos, estavam desnutridas no mês de julho, quase o dobro em relação ao mês anterior. E em julho e agosto, cerca de 25 mil crianças foram tratadas por desnutrição aguda na região.
Alimentos e outros suprimentos essenciais começaram a chegar aos poucos em Gaza em maio, após um bloqueio de 11 semanas imposto por Israel. Mas isso não foi suficiente. Em julho, o consumo de alimentos atingiu seu nível mais baixo desde o início da guerra, de acordo com a Classificação Integrada de Segurança Alimentar (I.P.C.), um grupo de especialistas apoiado pela ONU que monitora a fome no mundo. Mais ajuda chegou a Gaza desde então. Mas a escassez de alimentos continua generalizada e, para alguns dos habitantes mais vulneráveis, o dano já pode ter sido feito.
Durante toda a guerra, as autoridades israelenses minimizaram consistentemente a gravidade da fome em Gaza. O gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou a recente declaração de fome na cidade de Gaza como “uma mentira descarada” e afirmou que os especialistas responsáveis pelo relatório sobre a fome ignoraram os esforços israelenses, desde o final de julho, para levar mais alimentos ao território.
No entanto, autoridades humanitárias afirmam que essas medidas são insuficientes. Durante as duas primeiras semanas de agosto, a ONU informou que quase seis mil crianças, entre mais de 58 mil examinadas, foram diagnosticadas com desnutrição aguda.
Quando as crianças estão gravemente desnutridas, seus corpos recorrem às reservas para travar uma batalha desesperada pela sobrevivência. Eventualmente, seus órgãos começam a falhar.
Às vezes, elas ficam magras como esqueletos. Outras vezes, incham. Podem ficar letárgicas a ponto de permanecerem imóveis e pararem de comer, mesmo que haja comida, porque comer requer energia que elas não têm. À medida que seus sistemas de defesa começam a falhar, elas podem morrer repentinamente de doenças comuns que uma criança mais saudável poderia suportar.
Entenda o que acontece com um corpo desnutrido:
Quando a ingestão de alimentos é interrompida, o corpo primeiro queima suas reservas de gordura para manter as funções básicas.

Sem comida, o corpo usa primeiro a glicose armazenada no fígado e depois busca as reservas de gordura para obter energia e manter o cérebro e o corpo em funcionamento. A falta de glicose faz com que o cérebro perca energia e o pensamento fique nebuloso.
Após a perda de gordura, o corpo começa a quebrar os músculos para se manter vivo e a força física diminui rapidamente.
As crianças em Gaza foram examinadas para desnutrição usando um teste de circunferência do braço em crianças com idades entre seis meses e cinco anos.
Braços com menos de 12,4 centímetros de circunferência indicam desnutrição. Na Cidade de Gaza, 16% das crianças examinadas tinham braços com essa finura no final de julho. A média de circunferência para uma criança de dois anos, de acordo com os padrões de crescimento infantil da Organização Mundial da Saúde (OMS), é de cerca de 15,2 centímetros.
Em situações extremas, o corpo começa a destruir órgãos vitais em um último esforço para se manter vivo. O sistema imunológico fica bastante enfraquecido e infecções leves tornam-se perigosas.
Neste estágio, a criança fica apática e para de responder a estímulos. O coração, o fígado e outros órgãos vitais diminuem de tamanho. Erupções cutâneas ou feridas podem não cicatrizar e a barreira intestinal colapsa, dificultando o combate a infecções.

Quando os órgãos começam a falhar, qualquer movimento desnecessário à sobrevivência cessa. O controle da temperatura corporal torna-se mais difícil, especialmente em calor ou frio extremos, a respiração fica mais lenta e superficial, a pressão arterial cai e o coração sofre com arritmia, alteração no ritmo normal dos batimentos.
Além disso, surgem danos cerebrais, incapacidade do intestino de absorver água ou nutrientes, o que causa diarreia, e a pele da pessoa adquire um tom acinzentado.
Tratamentos insuficientes
Quando crianças sofrem de desnutrição aguda, a maioria dos alimentos comuns não consegue reverter o processo.
A OMS recomenda que crianças nessas condições sejam alimentadas com alimentos ricos em energia, como manteigas de nozes e batatas-doces, que às vezes podem ser encontrados localmente. Mas nem sempre esses recursos estão prontamente disponíveis em Gaza, onde os mercados e as fazendas foram destruídos.
As crianças por lá precisam de alimentos terapêuticos especialmente formulados, como leite enriquecido, para as que são muito pequenas, ou um produto à base de amendoim rico em calorias, vitaminas e nutrientes. A OMS também recomenda um antibiótico de amplo espectro para tratar infecções.
As crianças mais gravemente desnutridas precisam ser tratadas em um hospital, em parte porque não têm apetite e seus corpos estão tentando conservar energia. Elas são alimentadas com leite especialmente formulado, muitas vezes por meio de uma sonda nasogástrica.

Sharif Matar, pediatra do Hospital Infantil al-Rantisi, no norte de Gaza, disse em entrevista realizada no fim de agosto, que os médicos estão lutando para lidar com a escassez desse leite enriquecido. Embora haja mais disponibilidade agora do que há um mês, os profissionais de saúde ainda precisam racioná-lo para garantir que os casos mais graves tenham o suficiente.
— Estamos tentando fazer o nosso melhor com o que podemos. Mas em termos de qualidade ou quantidade do que está disponível, não é suficiente — ressaltou o médico.
Segundo o Dr. Matar, os médicos de Gaza não estão acostumados a lidar com casos de desnutrição aguda, já que o enclave nunca enfrentou uma crise tão grave. Alguns médicos de seu hospital têm participado de aulas de emergência organizadas pela OMS, enquanto outros tentam ler tudo o que podem sobre como tratar a doença, contou.
Autoridades de saúde em Gaza afirmam que dezenas de crianças morreram de desnutrição desde junho, mas não está claro quantas delas sofriam de desnutrição e outras doenças ou condições pré-existentes. Crianças que sofrem de desnutrição podem ser mais suscetíveis a contrair outras doenças, e crianças com condições pré-existentes podem ser mais vulneráveis à desnutrição, afirmam especialistas.
Algumas das crianças que receberam tratamento se recuperaram, incluindo uma menina de cinco anos em estado crítico que foi salva com leite terapêutico, disse o Dr. Matar.
Para uma criança, a alimentação não é apenas energia para o dia a dia. É o alicerce essencial para a vida futura, necessário para o desenvolvimento dos músculos, ossos e cérebro.

Mesmo que as crianças que sofrem de desnutrição grave recebam tratamento eficaz e sobrevivam, elas podem sofrer de atraso no crescimento, ossos fracos, problemas hepáticos e renais e dificuldades cognitivas. A longo prazo, pode haver um risco maior de derrame, diabetes e doenças cardíacas.
Dada a falta generalizada de alimentos em Gaza, tratar até mesmo uma única criança pode, às vezes, parecer uma tarefa impossível, disse Jamil Suleiman, diretor do Hospital Infantil al-Rantisi. Algumas crianças receberam alta e foram para acampamentos onde seus pais ainda lutam para encontrar comida suficiente, relatou o Dr. Suleiman.
— Algumas das crianças às quais damos alta voltam com os mesmos problemas uma semana depois — afirmou.
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