Sob a pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) estabeleceram nesta quarta-feira um aumento radical em seus gastos militares, o que exigirá um minucioso monitoramento ano após ano. Em sua declaração final, os 32 Estados-membros concordaram em aumentar seus gastos em Defesa para 5% de seus respectivos PIBs até 2035. Embora a reunião tenha sido moldada para agradar o republicano, o que ficou no ar após o encontro de Haia foram dúvidas sobre o comprometimento dele com a organização.
Ambicioso e histórico, o aumento obrigará os membros europeus da organização a gastarem muito mais em sua segurança e a multiplicar capacidades, cadências de fabricação e compras de armamentos. O objetivo, até agora, era 2%, um patamar que foi atingido no ano passado por 23 dos países-membros — o número, contudo, é bem maior do que os seis que o fizeram em 2021, um salto em boa parte creditado à invasão russa da Ucrânia.
Trump, após a cúpula, disse em entrevista coletiva que a decisão de aumentar drasticamente os gastos militares foi um “grande sucesso” e que a reunião foi “fantástica”.
A Espanha, no entanto, afirmou que atenderá às capacidades solicitadas pela Otan investindo 2,1%. O primeiro-ministro, Pedro Sánchez, insistiu que este nível de gasto é suficiente para que a Espanha contribua com as capacidades necessárias à aliança e que 5% seria “desproporcional”, podendo ameaçar o modelo social e forçar o país a aumentar os impostos.
— [Os 2,1% do PIB de gastos com Defesa] são um volume suficiente e realista de investimentos — disse Sánchez, em entrevista coletiva. — A Espanha cumprirá as suas capacidades e continuará a ser uma peça fundamental na arquitetura de segurança europeia.
A Bélgica, por sua vez, defendeu a mesma estratégia, alegando dificuldades orçamentárias.

Como esperado, o comunicado final foi bem mais curto do que de hábito: apenas cinco parágrafos, sendo que a elevação dos gastos consumiu a maior parte do texto. A Rússia, apontada pelos membros europeus da Otan como a maior ameaça enfrentada pela organização, foi citada apenas uma vez, como uma “ameaça a longo prazo”. A Ucrânia, cujo presidente, Volodymyr Zelensky, estava em Haia, mas não participou de algumas reuniões, foi citada duas vezes (na mesma frase), no trecho em que os países “reafirmam seus compromissos soberanos para fornecer apoio à Ucrânia”, que inclui “contribuições diretas” que poderão ser incluídas em seus cálculos de gastos de Defesa.
Não houve menção a outros desafios estratégicos, como as guerras no Oriente Médio, os recentes atritos entre Índia e Paquistão, ou os avanços militares da Coreia do Norte, tampouco menções a questões que afetam toda a humanidade, como a luta contra a mudança climática e a promoção da igualdade de gênero.
A Otan definiu diversas prioridades, como defesa aérea, segurança cibernética, logística e satélites. Isto deve permitir um aumento global de 30% nas capacidades militares, quintuplicar as defesas aéreas e adicionar milhares de tanques aos arsenais da Aliança, segundo o secretário-geral Mark Rutte.
Apresentada como o grande feito da reunião em Haia, a meta de gastos de 5% tem dois componentes básicos. O primeiro é um mínimo de 3,5% de gastos militares estritos (salários, aposentadorias, operações, aquisição de equipamentos, tarefas de manutenção). Cada país deverá informar, a cada ano, como está fazendo para alcançar esse nível. O número em si é um aumento considerável em relação ao pátamar atual, de 2%.
A esse percentual será somado 1,5% de investimento em âmbitos mais amplos como infraestruturas, inovação e proteção de fronteiras, de utilidade tanto civil quanto militar, incluindo, como determinou o comunicado final, “as contribuições diretas para a defesa da Ucrânia”. Em 2029, será realizada, além disso, uma revisão global desse mecanismo de investimento, considerando o panorama estratégico.
— O foco principal das nossas conversas na cúpula foi a necessidade de outros membros da Otan assumirem o ônus da defesa da Europa, o que incluía o ônus financeiro, como você sabe, era de 2%, nós o elevamos para 5% — disse o presidente, que há anos advoga por um patamar mais elevado de gastos. — Alguns deles vieram até mim, um em particular, e disse: “Senhor, estamos tentando elevar para 3% há 20 anos, e não conseguimos, e o senhor conseguiu para 5%”. Acho que quase todos vão contribuir agora.
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Ao ser questionado por um jornalista espanhol sobre a decisão de Madri de não adotar o patamar de 5%, Trump disse que era “algo muito ruim”, e sugeriu que poderia usar ferramentas tarifárias para forçar uma mudança de posição do governo de Pedro Sánchez.
— A Espanha é o único país, de todos os países, que se recusa [a gastar 5% com Defesa]. Então eles querem uma vantagem, mas terão que nos devolver em termos comerciais, porque eu não vou deixar isso acontecer. É injusto.
Os organizadores planejaram a cúpula milimetricamente para agradar Trump e evitar qualquer problema de sua parte que pudesse explodir a cúpula. No ano passado, os EUA contribuíram com 62% do orçamento total de Defesa da Aliança, enquanto o Canadá e a Europa aumentaram 19% seus investimentos.
O aumento nos gastos em Defesa para 5% do PIB dos países da Otan não se deve apenas ao fato de ser um valor que corresponde ao necessário para manter as capacidades militares da Aliança contra a Rússia, mas também porque os EUA exigiram. Caso contrário, poderiam retirar sua proteção àqueles que não pagam o suficiente.
O formato da reunião, que chegou a ser apelidada de “relâmpago” por analistas, também foi moldado para que Trump concordasse em participar, e para reduzir a chance de sobressaltos, como sua saída às pressas da reunião do G7, no Canadá, na semana passada. Assim como a pauta, que não se aprofundou sobre a guerra na Ucrânia, evitando críticas a Moscou — no G7, Trump barrou um trecho do comunicado que condenava a invasão — e dando um espaço mínimo e às margens para Zelensky: os dois se reuniram por cerca de 50 minutos, mas ficaram longe um do outro nos eventos oficiais.
— Eu queria saber como ele está — disse Trump, reconhecendo que ambos pasaram por “momentos difíceis” no passado, e prometendo analisar o envio de baterias do sistema de defesa aérea Patriot a Kiev, sem dar datas ou detalhes.
Sobre Putin, Trump disse ser possível que o presidente russo tenha ambições territoriais “além da Ucrânia”, e disse que deve conversar em breve com ele “para ver se conseguimos acabar com isso”, no caso, a guerra que se arrasta desde fevereiro de 2022.
Apesar do aparente otimismo do líder americano, que ainda se autocongratulava pelo cessar-fogo entre Irã e Israel, anunciado na antevéspera, Trump deixou em Haia sérias dúvidas sobre o compromisso dos EUA com a maior aliança militar do planeta. No Força Aérea Um, a caminho da Holanda, ele disse que “existem inúmeras definições para o Artigo 5”, se referindo ao trecho do Tratado do Atlântico Norte, de 1949, que considera um ataque contra qualquer um dos membros como um ataque a todos — o mecanismo foi acionado em 2001, após os ataques de 11 de Setembro.
Aos jornalistas, Trump não se referiu diretamente à sua interpretação do Artigo 5, e preferiu o caminho do excepcionalismo.
— Eles (europeus) querem proteger seu país. Eles precisam dos Estados Unidos, e sem os Estados Unidos, não será a mesma coisa. E você pode perguntar ao Mark [Rutte], ou a qualquer pessoa que estava lá. Foi realmente emocionante ver isso — afirmou. — Saí daqui dizendo que essas pessoas realmente amam seus países. E estamos aqui para ajudá-los a proteger seus países.
Antes de terminar a entrevista coletiva, Trump comentou uma fala, feita pouco antes por Mark Rutte, na qual o secretário-geral da Otan disse que “há momentos em que o ‘papai’ tem que usar uma linguagem mais dura”, uma alusão à pressão feita pelo líder americano sobre Irã e Israel.
— Ele gosta de mim, acho que ele gosta de mim, se não gostar, eu te aviso, volto e vou bater nele com força — afirmou o presidente, aparentemente se divertindo com a situação. — Ele falou de um jeito muito carinhoso, “papai”, “ouça meu papai”.
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