Depois de meses de mistério, a princesa de Gales veio a público, no início de 2024, para revelar por que sumira dos holofotes. Em um vídeo sereno, Kate Middleton anunciava que há um ano descobriu e começou a tratar um câncer na região abdominal. O diagnóstico da britânica de 43 anos é exemplo notório de um fenômeno cada vez mais comum: o aumento na incidência de tumores entre mulheres e homens com menos de cinco décadas de vida. Embora o câncer continue a afetar majoritariamente a fatia mais longeva da população, causa espanto, preocupação e temor seu crescimento entre os adultos jovens — figuras famosas, que compartilham suas vivências nas redes sociais, e cidadãos que sofrem no anonimato. Um levantamento global aponta que o número de casos nessa faixa etária cresceu 79% em trinta anos, enquanto as mortes pela doença subiram 28% no mesmo período. É um cenário desafiador e um tanto assustador — mesmo com o câncer deixando de ser sinônimo de sentença fatal graças aos avanços da ciência. Médicos e pesquisadores mergulham, agora mais do que nunca, em hipóteses e investigações para explicar o enigma.
A tendência, flagrada e comentada nos consultórios, não é monopolizada por um gênero ou tumor específico. Mas a escalada mais evidente nessa faixa de idade é a do câncer colorretal. Em comparação com a década de 1950, adultos jovens encaram hoje um risco duas vezes maior de desenvolver a doença no intestino grosso e quatro vezes maior de enfrentar um diagnóstico no reto. Os principais suspeitos nesse caso são o padrão alimentar e a obesidade. “O fácil acesso à comida altamente calórica e nutricionalmente pobre, que também é a mais barata, tem impulsionado esse aumento, ao lado do sedentarismo”, diz a pesquisadora Sarah Allinson, professora de genômica da Universidade de Lancaster, na Inglaterra. A combinação entre uma dieta inadequada e o ganho de peso torna o organismo mais propenso à inflamação, um estado que propicia falhas na divisão celular, o estopim para o câncer. Fora isso, suspeita-se do papel de substâncias químicas, inclusive oriundas de agrotóxicos, que poderiam interferir nessa história.
Por mais que se aplaudam as conquistas da medicina, o diagnóstico de um tumor em idade produtiva tende a ser duro, quando não devastador. Representa uma luta que não se restringe a uma doença que acomete a carne, mas também provoca uma odisseia emocional, profissional e espiritual. Que o diga a cantora e apresentadora Preta Gil, que recebeu a notícia de um câncer colorretal no começo de 2023, aos 48 anos, e, após a primeira cirurgia para remoção dos tumores, precisou se dedicar a uma intensa rotina de exames e procedimentos a fim de conter as artimanhas das células tumorais. O comprometimento com o tratamento, exposto com transparência, foi essencial diante de uma doença que sempre pode surpreender. Em agosto do ano passado, foram detectadas novas manifestações da enfermidade, que tinha se espalhado por outros órgãos e tecidos. A intervenção cirúrgica para debelar esses focos, realizada em dezembro, durou 21 horas. É uma jornada extenuante, mesmo para quem está acostumado a ter uma vida agitada.
Preta Gil segue em frente e não está sozinha. Assim como ela, outras celebridades quebraram tabus e abriram o jogo sobre o diagnóstico da doença — da influenciadora Fabiana Justus, de 38 anos, que teve uma leucemia, ao comentarista esportivo Caio Ribeiro, com um linfoma descoberto aos 46. Eles também não estão sozinhos porque a nova concepção da medicina é abraçá-los com tecnologias de ponta e o acolhimento de uma equipe multidisciplinar, com direito a psicólogo e nutricionista. É o que fortalece a resiliência para virar e vencer a partida contra a doença. E permite que Tudo Vai Passar, como prega a trilha sonora do filme Câncer com Ascendente em Virgem, que chegou aos cinemas nesta semana tendo como protagonista outra jovem face a face com a doença.
A batalha, como se vê, não se resume a um órgão do corpo. Uma análise publicada na revista científica Nature mostra que a incidência ascendente em pacientes com menos de 50 anos pode ser visualizada em ao menos catorze tipos de câncer. Há quem atribua o volume de diagnósticos à melhoria e ao maior acesso aos exames. “Mas esse fator, sozinho, não justifica um crescimento tão expressivo de casos”, afirma o médico Daniel Herchenhorn, da Oncologia D’Or. A dieta lotada de produtos ultraprocessados e carne vermelha, junto à obesidade, é apontada novamente como um dos patrocinadores. Mas estudos sugerem que outras condições, como o sedentarismo, a exposição ao sol sem proteção e o contágio por vírus como o HPV, que causa tumores no colo do útero, boca e garganta, dão sua dose de contribuição.
Enquanto alguns fatores podem ser modificados em escala individual — é factível perder peso, mudar a alimentação, passar filtro solar e vacinar-se contra o HPV, por exemplo —, outros representam desafios de ordem maior. É o caso da poluição do ar. Atribuem-se a ela 200 000 episódios de câncer de pulmão em um único ano. Detalhe: de um subtipo da doença cuja prevalência sinalizava diminuir em razão da queda no tabagismo. Não é à toa que se têm visto cada vez mais diagnósticos de tumores pulmonares em pessoas que nunca fumaram — um desfecho para o qual também colabora a genética. Em paralelo, cientistas apuram as influências de outros elementos, que vão de pesticidas a microplásticos (estes já encontrados em amostras de tumores). Até fatores ocupacionais estão na mira. “Estamos investigando a relação da doença com o trabalho noturno e a exposição à radiação”, exemplifica a pesquisadora Debora Bernardino, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro.

De fato, na compreensão completa desse quebra-cabeça, que leva à proliferação de células danosas e agressivas ao organismo, persiste um desafio que atravessa os séculos. Quase 2 000 anos separam as primeiras teorias de Hipócrates, o pai da medicina, que atribuía a moléstia a uma “bile negra”, hoje refutada pela ciência, dos painéis genômicos que analisam em minúcia a arquitetura dos tumores. Só a partir do século XVIII, no entanto, os médicos começaram a colher provas de que fatores externos ao corpo favoreciam o desenvolvimento do problema: descortinou-se o elo entre cheirar rapé e alterações nasais, bem como o aparecimento de tumores de testículo em limpadores de chaminé, que viviam em contato direto com a fuligem. Hoje, a lista de elementos carcinogênicos é longa, mas, frente ao desconhecido, não se sabe se é suficiente para explicar o adoecimento precoce.

Tal situação coloca um desafio de ordem prática para o tempo presente e o vindouro. Se detectar o câncer mais cedo é um dos melhores caminhos para aumentar as chances de cura, como lidar com condições não raro silenciosas, que expõem sintomas apenas quando já evoluíram? Como resguardar um público que não está contemplado pelos programas de rastreamento da doença na mama, na próstata e no intestino, geralmente recomendados para depois dos 50? O olhar para a prevenção também precisará ser reconfigurado, uma vez que é difícil dissociar as transformações no ambiente e no estilo de vida da “epidemia” de diagnósticos. Para alguns especialistas, esse olhar deveria se estender à infância. Ora, as crianças hoje estão mais sedentárias, comem mais tranqueiras, dormem menos e vivem em lugares mais poluídos do que no passado. “É possível que não só a exposição, mas os próprios fatores cancerígenos estejam mudando”, diz o oncologista Thiago Jorge, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Nesse sentido, também cabe esclarecer que o DNA pode ter algumas das respostas sobre a suscetibilidade a tumores. E uma das áreas de pesquisa mais efervescentes hoje mira justamente, além das mutações, alterações genéticas acionadas pelos hábitos e o ambiente. Sabe-se que os genes pesam sobretudo em cânceres que aparecem na infância e na juventude — e isso não é de hoje. O retinoblastoma, tumor ocular que ganhou popularidade após a campanha de conscientização concebida pelos apresentadores Tiago Leifert e Daiana Garbin, cuja filha teve a doença, é uma das principais causas de cegueira infantil. O câncer de testículo é outro que afeta em maior frequência os jovens, assim como uma parcela dos tumores cerebrais.
O fato, este livre de mistérios, é que compartilhar o diagnóstico da enfermidade, a despeito de sua localização, deixou ser um tabu. Foi-se definitivamente o tempo em que as velhas gerações não ousavam pronunciar a palavra “câncer”. Esse grau de abertura mobiliza acolhimento e sensibilização sobre o assunto. Em 2021, Caio Ribeiro falou abertamente sobre seu tratamento contra um linfoma descoberto após o aparecimento de um caroço no pescoço. Desde o ano passado, Fabiana Justus posta sua saga contra uma leucemia, denunciada por um mal-estar. Nem sempre a doença dá sinais claros, mas tudo que soa estranho e não cessa merece inspeção médica.

Foi assim com o gerente paulista Thiago Diniz, de 27 anos, que conviveu com dores nas costas — mais especificamente na região do rim esquerdo — por um mês em junho de 2023. “Estava trabalhando dia e noite. Na correria, nem procurei um médico, achava que era cólica renal”, recorda. Os exames acusaram um carcinoma que já tinha quase 12 centímetros. Ao longo de três meses, Diniz fez sessões de quimioterapia e, depois, foi submetido a uma cirurgia que retirou não só a lesão, mas o rim e o ureter. Ele conta que o início do tratamento foi árduo, mas o organismo se adaptou e, agora, está recuperando a força e a disposição. “Minha vida voltou ao normal, mas aprendi que a gente tem de manter a cabeça no lugar e lutar.”

Nessa batalha pela vida, há perdas também. O ator americano Chadwick Boseman, que eternizou o príncipe T’Challa em Pantera Negra, morreu aos 43 anos, em 2020, após uma dura experiência contra o câncer colorretal. Neste mês, a atriz belga Émilie Dequenne foi vitimada também aos 43 por um raro câncer nas glândulas suprarrenais, que a colocou em cuidados paliativos dois anos após o diagnóstico. Apesar das notícias tristes, o câncer está longe de ser o túnel sem luz que apavorava o mundo há poucas décadas. Em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos, as taxas de cura já se aproximam de 70%. Isso se deve, parcialmente, à conscientização e à detecção precoce. Quando se reconhecem as pistas do mal e se seguem as recomendações médicas de check-up, as chances de superar a doença se ampliam consideravelmente.

Na outra ponta, o tratamento também avança a passos largos. As cirurgias são menos invasivas; as quimioterapias, menos agressivas; a radioterapia, mais precisa; e a imunoterapia abriu caminho para o controle de condições antes incuráveis — caso do melanoma, um agressivo tumor de pele também mais prevalente em adultos jovens. No mais, na era dos testes genéticos, exames já permitem traçar abordagens preventivas — como simboliza o clássico caso de Angelina Jolie, que retirou as mamas para evitar uma chaga que havia atacado sua mãe e avó — e tratamentos mais direcionados e eficazes a partir das informações do DNA.

Nesse horizonte desafiador, contudo, há de se considerar também as desigualdades sociais — sempre elas, especialmente no Brasil. “No sistema privado, quando se fala em tratamento, o paciente brasileiro tem acesso a tudo o que há disponível nos EUA e na Europa”, afirma o oncologista Paulo Hoff, presidente da Oncologia D’Or. “No sistema público, porém, a demora é bem maior”, prossegue o médico, que também atua no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. A falta de acesso, tanto a cuidados básicos como às armas mais modernas da medicina, representa um dos principais gargalos no enfrentamento de um problema de saúde pública que pode se tornar mais letal para quem depende do SUS. E existem, ainda, as particularidades dentro do vasto e diverso território brasileiro: se no Sudeste a urbanização desenfreada gerou uma população mais estressada e sedentária, no Norte e no Nordeste continuam em alta tumores passíveis de prevenção com saneamento e vacina. Entre enigmas e disparidades, há muito trabalho pela frente. Poder falar a respeito abertamente e acolher melhor os pacientes já é um grande começo.
Publicado em VEJA de 28 de março de 2025, edição nº 2937
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