Campanha de difamação contra repórteres que cobriram atos golpistas expõe a violência bolsonarista
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
As jornalistas Gabriela Biló e Thaísa Oliveira, ambas da Folha de S.Paulo, tornaram-se alvos de uma campanha de linchamento virtual após publicarem reportagens sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A ofensiva difamatória nas redes sociais — com ameaças de morte, ataques a familiares e acusações infundadas — evidencia não apenas a vulnerabilidade dos profissionais de imprensa no Brasil, mas também a corrosão sistemática dos fundamentos democráticos diante da instrumentalização política da mentira e da violência.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Em publicações que viralizaram em grupos bolsonaristas, as jornalistas foram apontadas, sem qualquer prova, como responsáveis diretas pela prisão de Débora Rodrigues dos Santos, condenada a 14 anos de prisão por participação nos ataques aos Três Poderes. Os agressores sugerem que Biló e Oliveira teriam “entregue” imagens ao Supremo Tribunal Federal (STF), colaborando com o processo judicial. A acusação é falsa — como destacaram em nota conjunta os Sindicatos dos Jornalistas de São Paulo (SJSP), do Distrito Federal (SJPDF) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). A entidade classificou a ilação como “intolerável” e uma “desinformação” que revela o “absoluto desconhecimento sobre o livre exercício profissional e sobre a tarefa jornalística de produzir registros de interesse público”.
Débora, uma das inúmeras rés identificadas nos atos de 8 de janeiro, foi condenada por cinco crimes, incluindo tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e organização criminosa. A pichação da estátua A Justiça, com a infame frase “Perdeu, mané”, foi apenas uma das evidências usadas contra ela. A penalidade não se restringe ao ato de vandalismo, mas sim ao seu envolvimento numa tentativa orquestrada de subversão da ordem institucional.
O caso das jornalistas escancara a contradição de um movimento que se proclama defensor da liberdade de expressão, mas que a sacrifica assim que se confronta com a realidade jornalística. Como lembrou a Fenaj, é “fundamental desestimular a cultura da violência contra jornalistas por meio de uma ágil e justa responsabilização dos algozes, sem impunidade”. A escalada de ameaças, coordenadas por redes digitais simpáticas ao bolsonarismo, ocorre em um contexto de tensão política crescente — especialmente à medida que se aproxima o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, apontado pela Procuradoria-Geral da República como o mentor da tentativa de golpe.
Neste ambiente, a mentira se torna instrumento de manipulação coletiva. A criação de bodes expiatórios — neste caso, duas mulheres jornalistas — atende a uma estratégia antiga e eficaz: canalizar a frustração da massa contra indivíduos, personalizando o ódio para desviar o foco das instituições e dos verdadeiros responsáveis. Trata-se de um processo que remonta às técnicas de propaganda dos regimes totalitários do século XX. Como observou o filósofo Karl Popper, “os inimigos da sociedade aberta não hesitam em usar a liberdade para destruí-la”.
A repressão contra jornalistas não é nova no Brasil, mas se intensificou nos últimos anos. Dados da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) revelam que o país ocupa o 92º lugar no ranking mundial de liberdade de imprensa de 2023. Casos como o de Thiago Herdy, repórter do UOL perseguido por investigar contratos emergenciais da Prefeitura de São Paulo, mostram que o ataque à imprensa é transversal, atingindo profissionais de diferentes linhas editoriais. No entanto, o ódio se torna ainda mais virulento quando direcionado a mulheres. Não raramente, as agressões verbais se tornam sexualizadas, revelando um machismo estrutural que se funde ao autoritarismo político.
Ao contrário do que alegam seus detratores, jornalistas não julgam, não condenam, nem determinam penas. Sua função, prevista na Constituição Federal e reafirmada em tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, é informar, investigar e fiscalizar. “A liberdade de expressão é condição indispensável para a existência de uma sociedade democrática”, afirma o jurista e ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, em sua obra Interpretação e Aplicação da Constituição (2004). No entanto, essa liberdade não é absoluta: seu exercício não pode violar direitos fundamentais de terceiros, como a vida, a integridade física e moral, ou o livre exercício profissional.
A crítica à imprensa é legítima, e há mecanismos legais — como o direito de resposta e a ação judicial — para contestar eventuais erros ou abusos. O que se tem visto, porém, é o uso sistemático de estratégias de difamação e intimidação, estimuladas por figuras públicas e amplificadas por influenciadores que, cientes do poder de ressonância de suas palavras, lavam as mãos diante das consequências. “Eles não são os que atiram, mas constroem a narrativa que transforma o ato de atirar em um gesto heróico”, afirma a antropóloga Débora Diniz, professora da Universidade de Brasília (UnB), em entrevista ao El País Brasil (2020).
Essa lógica de mobilização política pelo ódio, pelo ressentimento e pela mentira coloca em xeque as bases da convivência democrática. O que está em jogo não é apenas a segurança de jornalistas individuais, mas a própria saúde pública da democracia brasileira. A democracia exige instituições sólidas, mas também cidadãos informados, pluralidade de vozes e liberdade de imprensa. Sem esses pilares, abre-se espaço para o autoritarismo, que sempre começa desacreditando e silenciando os que ousam mostrar o que ele quer esconder.
O Brasil vive, mais uma vez, sob nuvens carregadas. Cabe às instituições democráticas — Judiciário, Legislativo, Executivo e sociedade civil — reafirmar com firmeza que a violência contra jornalistas, sejam eles homens ou mulheres, de grandes veículos ou da mídia alternativa, não será tolerada. O que está em jogo é mais do que a integridade de duas profissionais da imprensa: é o futuro de um país que ainda luta para ser, verdadeiramente, livre.
Post Views: 126
Discover more from FATONEWS
Subscribe to get the latest posts sent to your email.