Na pacata Inocência, onde lojas e até órgãos públicos têm fachadas discretas, um tipo de atividade chama atenção pelos letreiros e imagens. São as boates que surgem pela cidade e, principalmente, no Núcleo Industrial, bairro a 2 quilômetros do Centro. Nada discretos, os imóveis são pintados de rosa-choque, com fotos ou desenhos de mulheres em poses sensuais.
A pacata cidade de Inocência (MS) enfrenta uma transformação significativa com a chegada de dezenas de casas noturnas, acompanhando o fluxo de trabalhadores da construção da fábrica de celulose da Arauco. O fenômeno repete o que aconteceu em Ribas do Rio Pardo durante a construção da fábrica da Suzano em 2021. Cerca de 30 estabelecimentos já solicitaram alvará de funcionamento na cidade, que deve ver sua população saltar de 8.500 para 32 mil habitantes nos próximos três anos. Os estabelecimentos, com fachadas chamativas em rosa-choque, concentram-se principalmente no Núcleo Industrial, a 2 km do Centro. Proprietários relatam altos custos de operação, com aluguéis chegando a R$ 8 mil para boates, enquanto imóveis residenciais são alugados por R$ 5 mil. As profissionais do sexo vêm de diversos estados, como Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A atividade, reconhecida desde 2002 pelo Ministério do Trabalho, não é crime, mas os estabelecimentos operam como bares para evitar enquadramento em rufianismo.
A chegada de tantas casas para lazer de adultos é vista pela população – ainda mais acostumada com a cidade tranquila que era Inocência antes do começo da construção da fábrica de celulose da Arauco, que trouxe milhares de trabalhadores, – como um “mal necessário”.
Na cidade, corre de boca em boca que quase 30 boates já pediram alvará de funcionamento ao poder público, o que, claramente, deixa as mulheres mais incomodadas ao falarem sobre a situação, enquanto os homens se mostram bem animados. Na hora de fechar contrato de aluguel de casa, há quem já deixe expresso no documento a proibição de que o seu imóvel vire uma boate.
Seguindo o dinheiro da rota da celulose, os prostíbulos migraram de Ribas do Rio Pardo, que em 2021 viveu boom com a construção da fábrica de celulose da Suzano, para Inocência.
Após investimento de quase R$ 150 mil no novo endereço, Izabela Sales, 23 anos, proprietária do Iza Drinks, ainda espera que a mudança traga mais lucros.
“A minha primeira boate foi em Brodowski, interior de São Paulo. Depois, fui para Ribas e agora vim para cá. Primeiro, meu intuito era ir para Água Clara ou Paranaíba. Mas acabamos vindo para cá. Em relação a Ribas, isso aqui está uma tristeza”, diz Izabela.
O comparativo é quando Ribas estava cheia de funcionários para a construção da fábrica. Pois, desde agosto de 2024 o movimento caiu e a boate migrou para Inocência, sendo inaugurada em 7 de dezembro do ano passado.
“A gente teve que começar do zero e o investimento foi muito alto. E estamos até hoje investindo e pagando, porque a obra ainda não terminou”.
De terça a sexta, a boate abre às 18h. Aos fins de semana o horário é ampliado, com funcionamento a partir das 14h. A programação inclui noites temáticas, principalmente após o dia de pagamento dos trabalhadores. “A gente inventa festa. A cada pagamento a gente inventa alguma coisa. Também panfletamos para chamar a atenção do público. Mas já tem muita boate na cidade. A grande maioria veio de Ribas”, conta Izabela.
Os custos inflacionados da cidade também pressionam o estabelecimento, que gasta com aluguel e bebidas. “Eu fico indignadíssima com o preço das coisas. Aqui é três vezes pior do que Ribas. E olha que lá era muito caro. Se for aluguel para moradia, você acha casa de R$ 5 mil. Agora, para boate, o mínimo que você acha é R$ 8 mil por uma casinha. Isso quando acha”.
A boate abriu as portas com 13 profissionais do sexo, depois o número baixou para 11. As trabalhadoras são da Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná, Campo Grande, Três Lagoas.
Inocência tinha 8.400 habitantes, contando a população da área rural. Oficialmente, a prefeitura informa que atualmente são 8.500 habitantes, mas o cálculo informal é que já são 13 mil pessoas na cidade. A administração prevê que, nos próximos três anos, sejam 32 mil pessoas. Depois, a cidade deve se estabilizar com 19 mil habitantes.
Tida como a mais antiga do mundo, a profissão de prostituta só foi reconhecida em 2002, recebendo o número 5.198 na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações), do Ministério do Trabalho e Emprego. Porém, não é regulamentada.
Prostituição também não é crime. Mas, para não se enquadrar em rufianismo, as boates recorrem ao bar e aluguel do espaço. De acordo com o Código Penal, rufianismo é tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar.
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